Estudo revela que mosquitos Aedes aegypti podem aprender a associar o repelente DEET ao alimento
Pesquisadores das universidades de Tours e de Buenos Aires descobriram que mosquitos Aedes aegypti podem associar o odor do repelente DEET ao alimento. Em laboratório, mais de 60% dos insetos passaram a tentar picar ao sentirem o produto após exposições repetidas. O fenômeno é improvável em condições normais de uso
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Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Tours, na França, e da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, revelou que mosquitos do gênero *Aedes aegypti* — transmissores de dengue, zika e chikungunya — podem aprender a associar o odor do repelente DEET à obtenção de alimento. O experimento, realizado em ambiente controlado de laboratório, demonstrou que a reação dos insetos ao produto pode ser modificada por experiências prévias, acrescentando um fator comportamental ao entendimento sobre a eficácia dos repelentes.
Para testar a hipótese, a equipe utilizou um mecanismo de associação semelhante ao experimento de Pavlov. Inicialmente, os mosquitos evitaram a aproximação de sangue aquecido quando o ambiente estava impregnado com o cheiro do DEET. No entanto, após serem expostos repetidamente ao alimento com a liberação do odor do repelente nos segundos finais de cada refeição, mais de 60% dos insetos passaram a tentar picar ao sentirem apenas o cheiro do produto.
A capacidade de aprendizado foi confirmada em diferentes cenários. Em um teste conduzido por Ayelén Nally, mosquitos treinados preferiram picar a mão de uma pesquisadora que utilizava DEET em vez da mão limpa. Outro experimento, liderado por Charly Dufour, mostrou que os insetos também associaram rapidamente o odor do repelente a refeições açucaradas, reagindo com entusiasmo à detecção da substância.
O pesquisador Claudio Lazzari explica que o DEET, composto sintético desenvolvido na década de 1940 pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), provavelmente imita compostos repelentes naturais de plantas. Até então, acreditava-se que a eficácia do produto se devia apenas a propriedades químicas, como toxicidade ou bloqueio da detecção de humanos. A descoberta indica que o odor transmite uma informação que o mosquito processa para decidir se pica ou não, mas que essa decisão pode ser alterada se o inseto for recompensado com alimento.
Apesar dos achados, os cientistas enfatizam que o fenômeno não ocorre em populações naturais e é improvável que aconteça nas condições normais de uso. Para que a atração ocorra, é necessário que o mosquito experimente a presença simultânea do repelente e do alimento várias vezes em um curto intervalo de tempo. Lazzari sugere que a única situação real possível seria se um inseto picasse alguém com uma concentração de DEET já muito baixa para afastar, mas ainda detectável pelo olfato.
O estudo não determinou por quanto tempo essa associação é mantida, ponto que ainda requer investigação. No entanto, os resultados podem auxiliar no desenvolvimento de novos repelentes e em estratégias de controle de doenças, evidenciando que a eficácia de substâncias não deve ser avaliada apenas no primeiro contato, mas também após exposições repetidas.
Os pesquisadores reforçam que o DEET permanece como o padrão-ouro e a principal ferramenta de proteção contra picadas de insetos, devendo ser utilizado conforme as instruções do fabricante para garantir a eficácia.