Estudo revela que núcleos rochosos dos continentes não são imutáveis e sofrem instabilidades periódicas
Estudo da National Science Review indica que crátons apresentam instabilidades e desprendimentos de suas bases para o interior da Terra. Evidências sísmicas confirmam a ocorrência desse processo no Cráton Amazônico, que possui mais de 4 milhões de quilômetros quadrados. A delaminação litosférica altera o relevo, bacias hidrográficas e a formação de depósitos minerais
Um estudo publicado em março de 2025 pela National Science Review questiona a teoria geológica tradicional ao revelar que os crátons — os núcleos rochosos mais antigos dos continentes — não são estruturas imutáveis. A pesquisa, coordenada por Lijun Liu e sua equipe, demonstra que as bases desses núcleos apresentam instabilidades periódicas, resultando em desprendimentos que fazem com que partes da estrutura afundem no interior da Terra, podendo retornar à base do cráton após serem aquecidas pelo manto.
A investigação identificou que as raízes dos crátons possuem densidade superior à do manto circundante. Esse fator cria um desequilíbrio precário, no qual a força gravitacional que puxa as raízes para baixo é cinco vezes maior do que a força que as mantém flutuando. A estabilidade do sistema depende, portanto, da rigidez mecânica da rocha; quando essa resistência é comprometida por plumas térmicas, presença de fluidos ou aquecimento do manto, ocorre a delaminação litosférica, processo em que a parte inferior da raiz se separa e mergulha no manto.
Evidências sísmicas de anisotropia confirmam que esse fenômeno está em curso na América do Sul, especificamente sob o Cráton Amazônico. Este bloco, que abrange áreas da Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e grande parte dos estados do Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia e Mato Grosso, é um dos maiores do mundo, superando a extensão da Índia com mais de 4 milhões de quilômetros quadrados. Suas rochas mais antigas, na Província Amazônia Central, datam de mais de 3,5 bilhões de anos, tendo resistido a extinções em massa, mudanças atmosféricas e a sucessivas formações de supercontinentes e oceanos.
A estrutura da região é composta por uma crosta continental de 35 a 45 quilômetros de espessura, sustentada por uma raiz litosférica rígida e densa que se estende por mais 150 a 200 quilômetros. Abaixo dessa base encontra-se o manto astenosférico, que se comporta como um fluido viscoso em escalas de milhões de anos. A análise de ondas sísmicas revelou que, abaixo da descontinuidade médio-litosférica, a orientação das rochas difere da parte superior, sugerindo que a camada inferior se desprendeu, sofreu deformação no manto e foi reintegrada. Além disso, foram detectadas anomalias de alta velocidade entre 600 e 800 quilômetros de profundidade, interpretadas como fragmentos de raízes litosféricas de eventos tectônicos antigos.
As consequências desse processo impactam a superfície terrestre. A perda de massa causada pelo desprendimento da base pode provocar a ascensão da parte superior do cráton, alterando o relevo e reorganizando bacias hidrográficas, como a Bacia Amazônica. No aspecto mineral, a delaminação pode influenciar a circulação de fluidos e a formação de depósitos de cobre, ouro e ferro.
Um exemplo emblemático dessa dinâmica é o Cráton do Norte da China, onde a raiz foi reduzida de aproximadamente 200 quilômetros para menos de 80 quilômetros, resultando em vulcanismo e reorganizações tectônicas ao longo de centenas de milhões de anos. Embora as causas exatas ainda sejam estudadas, as evidências apontam que mesmo as estruturas mais antigas do planeta estão sujeitas a transformações profundas.