Ciência

Estudos indicam que a paternidade promove transformações biológicas e cerebrais profundas nos homens

04 de Agosto de 2026 às 12:05

Estudos indicam que a paternidade provoca alterações biológicas e neurais nos homens, como a redução da testosterona e o aumento da oxitocina. Essas mudanças são ativadas pelo nível de envolvimento no cuidado infantil, impactando a saúde cardiovascular dos filhos e a saúde mental das mães

Estudos indicam que a paternidade promove transformações biológicas e cerebrais profundas nos homens
Getty Images / BBC

A ciência tem revelado que a transição para a paternidade promove transformações biológicas profundas nos homens, semelhantes às que ocorrem com as mulheres durante a maternidade. Estudos indicam que o corpo e o cérebro masculino possuem estruturas preparadas para o cuidado infantil, que são ativadas conforme o nível de envolvimento do pai na rotina do bebê.

Alterações hormonais e o vínculo paterno

A descoberta de que machos de diversos mamíferos e primatas sofrem mudanças hormonais ao cuidar da prole abriu caminho para pesquisas em humanos. Um estudo realizado em Cebu, nas Filipinas, com 624 homens, demonstrou que a testosterona diminui significativamente naqueles que se tornam pais. A queda é ainda mais acentuada em homens que dedicam mais horas aos cuidados dos filhos ou que dividem a cama com os bebês.

Essa redução hormonal não ocorre apenas após o nascimento. Pesquisas coordenadas por James K. Rilling, da Universidade Emory, identificaram que a testosterona e a vasopressina já apresentam níveis mais baixos apenas quatro meses após a concepção. Essa antecipação biológica está ligada a um maior comprometimento e satisfação do pai após o parto, tornando-o mais atento e responsivo ao choro do recém-nascido.

Outros hormônios também desempenham papéis centrais:

  • Oxitocina: Conhecida como o hormônio do amor, seus níveis aumentam em pais durante o contato físico e brincadeiras, criando um ciclo de reforço onde a interação gera mais oxitocina, que por sua vez estimula mais interação.
  • Prolactina: Associada ao cuidado materno, níveis elevados deste hormônio em futuros pais prevêem um maior grau de envolvimento nos cuidados com a criança.
  • Vasopressina: Em animais, está ligada à agressividade, mas em futuros pais humanos, apresenta redução antes mesmo do nascimento.

Remodelação cerebral e a "capacidade latente"

A paternidade também promove mudanças neurais. Pesquisas lideradas por Darby Saxbe revelam que o cérebro dos pais de primeira viagem se adapta para processar novas informações, em um processo comparável à adolescência. Homens que planejam licenças parentais mais longas ou que sentem vínculos fortes com o bebê ainda não nascido apresentam alterações cerebrais mais significativas.

A antropóloga Sarah Hrdy define essa característica como um substrato aloparental — uma capacidade biológica latente de cuidar de crianças que existe em todos os seres humanos e é ativada nas circunstâncias adequadas.

Um estudo israelense de 2014 reforça essa tese ao comparar a atividade cerebral de diferentes configurações familiares. Enquanto pais heterossexuais que apenas "ajudavam" mostravam maior atividade em áreas sociais (avaliando a situação antes de agir), homens gays que exerciam o papel de cuidador principal apresentavam atividade intensa na amígdala e em outras regiões consideradas "maternas", provando que a função de cuidador principal reconfigura a estrutura cerebral masculina.

Impactos na saúde e políticas públicas

A evidência de que a biologia do pai é moldada pelo cuidado sugere a necessidade de políticas públicas que incentivem a licença parental e a participação masculina desde a gestação, incluindo a presença em ultrassonografias e consultas médicas.

O impacto dessa participação reflete-se na saúde de toda a família. Mães com parceiros ativos relatam melhor saúde mental em países como Estados Unidos, Quênia e Paquistão. Para as crianças, os benefícios são físicos: um estudo publicado em 2026, acompanhando 292 famílias por sete anos, concluiu que filhos de pais mais atentos apresentam melhor saúde cardiovascular, um efeito que não foi observado da mesma forma em relação ao comportamento materno.

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