Ciência

Evolução dos sistemas digestivos marinhos impulsionou a diversificação da vida na Terra há milhões de anos

18 de Outubro de 2026 às 06:17 2 min de leitura

Análise de coprolitos por pesquisadores da Austrália e Alemanha indica que a evolução dos sistemas digestivos marinhos impulsionou a explosão cámbrica há 540 milhões de anos. O desenvolvimento de aparelhos digestivos complexos aumentou a produção de resíduos orgânicos, redistribuindo nutrientes essenciais nos oceanos. Esse processo fertilizou ecossistemas e viabilizou a expansão da biodiversidade animal

-0:00
Evolução dos sistemas digestivos marinhos impulsionou a diversificação da vida na Terra há milhões de anos
Kimmig & Bicknell, Trends Ecol. Evol., 2026

A análise de coprolitos — fezes fossilizadas de animais primitivos — revelou um fator biológico determinante para a diversificação da vida na Terra há 540 milhões de anos. Um estudo publicado na revista Trends in Ecology & Evolution indica que a evolução dos sistemas digestivos marinhos, durante a transição entre o Ediacárico e o Cámbrico, impulsionou a chamada explosão cámbrica.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Flinders, na Austrália, e do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, baseou-se no exame de mais de 35 depósitos fósseis globais. Os dados mostram que, enquanto os registros mais antigos consistem em estruturas alongadas, filmes ou pequenos grãos, os depósitos posteriores apresentam resíduos significativamente maiores, contendo inclusive fragmentos de animais e conchas.

A evolução do sistema digestivo

Essa mudança na composição e no tamanho dos fósseis evidencia que os organismos marinhos desenvolveram aparelhos digestivos mais complexos. Inicialmente, muitos animais possuíam sistemas sem saída independente, realizando a ingestão e a eliminação de resíduos pela mesma abertura.

A transição para sistemas digestivos completos permitiu que o alimento atravessasse o organismo de maneira contínua, o que elevou a capacidade de obtenção de energia e a eficiência alimentar. Esse avanço foi notável nos primeiros artrópodes, que desenvolveram glândulas digestivas e intestinos anteriores especializados para processar dietas mais variadas.

A "revolução fecal" e o ciclo de nutrientes

Os pesquisadores definiram esse fenômeno como "revolução fecal". A maior produção de resíduos orgânicos, resultante do aumento da biomassa e da sofisticação digestiva, alterou a dinâmica física dos oceanos. A matéria orgânica passou a descer das águas superficiais para as profundezas em maior volume, transportando nutrientes essenciais como fósforo, nitrogênio e carbono.

De acordo com o paleobiólogo Russell Bicknell, da Universidade Flinders, a importância das fezes nos ecossistemas antigos é frequentemente ignorada, embora tenham sido fundamentais para redistribuir nutrientes e alimentar novas redes ecológicas.

Impacto na biodiversidade marinha

A proposta científica sugere que a reciclagem de nutrientes via coprolitos criou um ciclo de retroalimentação positiva:

  • Animais maiores produziam mais resíduos;
  • O aumento de resíduos fertilizava os ecossistemas;
  • A maior disponibilidade de recursos sustentava organismos ainda mais diversos.

Esse mecanismo biológico atuou em conjunto com outros fatores, como a elevação dos níveis de oxigênio e mudanças geológicas, para viabilizar a rápida expansão da vida animal. A dinâmica observada nos depósitos de coprolitos do início do Cámbrico assemelha-se aos processos que mantêm a produtividade dos oceanos na atualidade.

Notícias Relacionadas