Exame de sangue para rastreio de tumores aumenta diagnósticos precoces em estudo no Reino Unido
Estudo britânico com 142 mil pessoas indicou que o exame de sangue NHS-Galleri não reduziu diagnósticos de tumores em estágio avançado. A pesquisa registrou aumento de 16% na detecção de cânceres iniciais e precisão de 92,5% na estimativa da origem do tumor
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Um estudo realizado no Reino Unido com mais de 142 mil pessoas testou a eficácia de um exame de sangue capaz de rastrear simultaneamente mais de dez tipos de tumores. Os resultados, apresentados durante o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, indicaram que a tecnologia não cumpriu seu objetivo primário: reduzir a quantidade de casos diagnosticados em estágio avançado. Por essa razão, tecnicamente, o ensaio clínico — denominado NHS-Galleri — é classificado como negativo.
Apesar de não confirmar a hipótese principal, a pesquisa revelou dados significativos sobre a detecção precoce. Houve um aumento de 16% nos diagnósticos de tumores em estágio inicial (estágios 1 e 2), incluindo tipos de câncer frequentemente descobertos tardiamente, como os de fígado, pâncreas, esôfago e ovário. Paralelamente, as detecções de estágio 4, a fase mais grave da doença, recuaram 14%.
A tendência de deslocar o diagnóstico para fases iniciais intensificou-se ao longo do tempo. A queda nos casos avançados foi de 9% no primeiro ano, subindo para 22% no segundo e 26% no terceiro. Esse padrão ocorre porque, após a primeira triagem da população, que identificou tumores já existentes, o exame passou a captar predominantemente novas neoplasias em estágio inicial.
O teste baseia-se na biópsia líquida, que identifica fragmentos de material genético liberados por células tumorais na corrente sanguínea através de padrões de metilação no DNA. Quando o resultado é positivo, o exame estima a origem do tumor, com uma precisão de 92,5% nos casos confirmados.
A tecnologia apresenta alta especificidade (99,55%), resultando em poucos alarmes falsos em pessoas saudáveis. Contudo, o valor preditivo positivo é de 52%, o que significa que apenas metade dos resultados positivos confirmou a presença de câncer. Além disso, a sensibilidade do exame é menor para tumores iniciais do que para avançados, e há o risco de a investigação complementar não localizar a lesão por meio de imagens, caso a alteração seja apenas molecular.
O NHS-Galleri é o primeiro ensaio clínico randomizado a testar esse tipo de exame de sangue integrado ao rastreamento de rotina em um sistema público de saúde. A pesquisa acompanhou voluntários entre 50 e 77 anos, sem sintomas prévios de câncer, divididos em dois grupos para comparar a incidência de diagnósticos nos estágios 3 e 4.
Atualmente, o exame é comercializado nos Estados Unidos por US$ 949, embora não possua aprovação da Food and Drug Administration (FDA) ou de outras agências reguladoras. No Brasil, o custo e a ausência de respaldo científico para uso populacional impedem a incorporação do teste a exames de rotina, como o Papanicolau ou a mamografia. Como o acompanhamento dos participantes durou apenas três anos, ainda não há evidências de que a detecção antecipada resulte em maior sobrevida dos pacientes.