Ciência

Expedição do Greenpeace investiga fauna e ecossistemas vulcânicos nas profundezas do oceano Norueguês-Groenlandês

14 de Maio de 2026 às 09:14

Expedição do Greenpeace investiga a fauna e os sistemas vulcânicos das dorsais Mohn e Knipovich, no oceano Norueguês-Groenlandês, entre 8 de maio e 5 de junho de 2026. Treze pesquisadores de quatro países utilizam um veículo operado remotamente para coletar dados que subsidiarão debates na Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos

Expedição do Greenpeace investiga fauna e ecossistemas vulcânicos nas profundezas do oceano Norueguês-Groenlandês
Navio do Greenpeace navega o Ártico carregando ROV para expedição até 3.000 metros (representação artística).

Uma expedição do Greenpeace, iniciada em 8 de maio de 2026 após partida do maior porto pesqueiro da Irlanda, investiga as profundezas do oceano Norueguês-Groenlandês. Com operação prevista até 5 de junho, a missão foca nas dorsais Mohn e Knipovich, sistemas vulcânicos submarinos com águas permanentemente abaixo de 4°C. O objetivo central é catalogar a fauna local — da qual menos de 5% foi identificada —, mapear comunidades de esponjas abissais, filmar campos hidrotermais e documentar a relação entre esses ecossistemas e os ciclos de carbono do oceano profundo.

A bordo de um navio de 65 metros, 13 pesquisadores de quatro países europeus e 22 tripulantes utilizam um veículo operado remotamente (ROV) para capturar imagens do leito marinho a até 3 mil metros de profundidade. A equipe é liderada pelos zoólogos Paco Cárdenas e Julio A. Diaz, do Museu de Evolução da Universidade de Uppsala, na Suécia, com a participação de cientistas da Universidade de Madrid, da Universidade de Bergen e da Senckenberg Society for Nature Research, da Alemanha. Entre 15 e 30 de maio, a missão transmitirá ciência ao vivo das profundidades árticas.

A iniciativa ocorre em um cenário de tensão entre a preservação científica e a exploração industrial de minerais como níquel, cobalto e terras raras, essenciais para baterias. Os dados coletados serão apresentados em Bergen, na Noruega, em junho, e posteriormente levados à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) para subsidiar o debate sobre a perfuração de áreas ainda desconhecidas.

A urgência da pesquisa é reforçada por descobertas recentes. Em novembro de 2025, a professora Giuliana Panieri, da Universidade Ártica da Noruega, identificou o campo Frigg Vent Field a 2.700 metros no Estreito de Fram, que abriga fauna em escuridão total. Em dezembro do mesmo ano, a equipe descobriu os Freya Hydrate Mounds a 3.640 metros na Dorsal de Molloy, expandindo em quase 1.800 metros o limite conhecido de profundidade para hidratos de gás. Na ocasião, foram registrados jatos de metano subindo mais de 3.300 metros pela coluna d’água. Ambos os campos situam-se a centenas de quilômetros de blocos cogitados para concessões de mineração de zinco e cobre.

No plano político, a Noruega suspendeu seus planos de mineração no Ártico até pelo menos 2029, após decisão parlamentar em fevereiro, revertendo sua posição como principal defensora da atividade na Europa. Atualmente, 32 governos apoiam uma moratória ou pausa precaucionária, incluindo Brasil, França, Alemanha, Reino Unido, Chile, Canadá, Nova Zelândia, Costa Rica e a maioria dos Estados insulares do Pacífico — onde a atividade é vista como ameaça à cultura local e à pesca.

O mercado também exerce pressão contra a extração submarina. Google, Samsung, Volvo e Apple, somando 58 empresas de tecnologia e veículos elétricos, comprometeram-se a não adquirir minerais do fundo do mar. Essa postura impacta a viabilidade de projetos privados, resultando no cancelamento de contratos de mineração de nódulos no Pacífico.

A preocupação ambiental é sustentada por estudos do Museu de História Natural de Londres e da Universidade de Gotemburgo. Após 160 dias de monitoramento na zona Clarion-Clipperton, no Pacífico, os pesquisadores registraram uma queda de 37% na quantidade de animais e perda de 32% da riqueza de espécies. Mesmo com a coleta de 4.350 animais de 788 espécies, a recuperação parcial do ecossistema só foi observada cinco anos após os testes, evidenciando um dos maiores impactos industriais já documentados.

No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou em maio de 2026 a Política Nacional de Minerais Críticos, prevendo um Fundo Garantidor de R$ 2 bilhões e créditos fiscais de R$ 5 bilhões em cinco anos para a exploração doméstica de lítio, cobre, cobalto, níquel e terras raras. O tema repercute no setor de petróleo e gás, especialmente no pré-sal, devido ao uso desses minerais em turbinas e equipamentos elétricos. A pressão sobre o fundo do mar, possivelmente incluindo o Atlântico Sul, tende a crescer caso a mineração terrestre não consiga suprir a demanda da transição energética.

Apesar da moratória apoiada por diversos países, defensores da exploração argumentam que a mineração marinha é necessária para reduzir a dependência geopolítica de fornecedores como a República Democrática do Congo e a China. Enquanto isso, a ISA avançou em março de 2026 nas negociações do código de mineração em águas internacionais, embora ainda persistam lacunas significativas sobre proteção ambiental e pagamentos.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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