Ciência

Expedição francesa investiga resíduos radioativos descartados no fundo do Oceano Atlântico

24 de Setembro de 2026 às 15:07 3 min de leitura

O projeto francês NODSSUM investiga o impacto de mais de 200 mil barris de resíduos radioativos descartados no Oceano Atlântico entre 1949 e 1982. Expedições com veículos submarinos identificaram corrosão nos recipientes e a presença de radioisótopos no ambiente e na fauna abissal

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Expedição francesa investiga resíduos radioativos descartados no fundo do Oceano Atlântico
NODSSUM Campaign/CNRS/French Oceanographic Fleet

Uma expedição científica francesa está investigando o impacto de milhares de recipientes de resíduos radioativos depositados no fundo do Oceano Atlântico durante a segunda metade do século XX. O projeto NODSSUM, coordenado por pesquisadores do Centro Nacional para a Pesquisa Científica da França, busca reconstruir a trajetória desses materiais após décadas de exposição a condições extremas em profundidades abissais.

Entre 1949 e 1982, nações europeias descartaram no mar mais de 150 mil toneladas de resíduos de baixa atividade, distribuídas em mais de 200 mil barris. A prática, comum na época, baseava-se na premissa de que tais materiais se dispersariam lentamente no ambiente marinho, sendo depositados em profundidades que variam entre 3.000 e 5.000 metros.

Mapeamento e monitoramento abissal

A iniciativa NODSSUM foi idealizada pelo geólogo marinho Javier Escartín e pelo engenheiro nuclear Patrick Chardon para suprir a falta de dados sobre a localização e o estado de conservação desses depósitos. O programa integra conhecimentos de oceanografia, física nuclear, biologia marinha, química e geologia.

A primeira fase de campo ocorreu em junho de 2025, com o navio L'Atalante. Utilizando o veículo submarino autônomo UlyX, a equipe mapeou o leito marinho e identificou 3.355 barris em um único mês, além de coletar amostras iniciais de sedimentos, água e fauna local.

Em maio de 2026, uma segunda missão foi realizada com o navio Pourquoi Pas? e o submarino tripulado Nautile. Durante 20 mergulhos que atingiram profundidades superiores a 4.700 metros, os cientistas observaram que algumas estruturas apresentavam corrosão avançada e acúmulo de material ao redor, evidenciando que parte do conteúdo radioativo já havia escapado dos recipientes.

Detecção de radioisótopos e impacto biológico

Análises técnicas confirmaram a presença de radioisótopos no ambiente marinho. Foram detectados sinais significativos de cobalto-60 e niobio-94, além de concentrações de césio-137 e amerício-241 acima dos níveis esperados para contaminações provenientes de testes nucleares atmosféricos.

Um ponto de destaque da observação foi a interação da fauna abissal com os depósitos. Os barris passaram a funcionar como recifes artificiais, servindo de abrigo para:

  • Anêmonas e esponjas;
  • Pepinos-do-mar;
  • Peixes e crustáceos, incluindo caranguejos.

O Nautile coletou amostras de água, microrganismos, fauna e sedimentos em cinco pontos distintos, inclusive em áreas adjacentes aos barris. O objetivo agora é determinar se os radioisótopos liberados foram absorvidos pelos organismos vivos.

Embora o estudo sobre o impacto no ecossistema abissal continue, os pesquisadores informaram que a manipulação das amostras não gerou problemas de proteção radiológica, e não houve contaminação nos instrumentos ou no submarino.

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