Ciência

Fragmento da Ilíada é encontrado costurado ao abdome de múmia no Egito

14 de Maio de 2026 às 06:14

Uma missão binacional entre Egito e Espanha localizou, em Al-Bahnasa, um fragmento da Ilíada de Homero costurado ao abdome de uma múmia de 1.600 anos. O achado, anunciado em 18 de abril de 2026, representa o primeiro texto literário grego identificado em práticas funerárias. O papiro foi encontrado em uma tumba com 16 múmias na antiga cidade de Oxyrhynchus

Fragmento da Ilíada é encontrado costurado ao abdome de múmia no Egito

Uma missão binacional entre Egito e Espanha, composta pela Universidade de Barcelona e pelo Instituto del Próximo Oriente Antiguo, descobriu o primeiro texto literário grego utilizado em práticas funerárias na história. O achado, anunciado em 18 de abril de 2026, ocorreu no sítio de Al-Bahnasa, na província de Minya, região correspondente à antiga cidade de Oxyrhynchus.

O item inédito é um fragmento do Livro II da Ilíada, de Homero, especificamente a seção conhecida como Catálogo das Naus, que detalha as forças gregas que partiram para a Guerra de Troia. O papiro foi encontrado costurado ao abdome de uma múmia de aproximadamente 1.600 anos, datada do período romano tardio. A descoberta é considerada sem precedentes pela Universidade de Barcelona, pois, anteriormente, os papiros encontrados em contextos funerários limitavam-se a hinos rituais, fórmulas de proteção ou textos mágicos, diferindo da natureza secular da obra de Homero.

A identificação do texto foi realizada pela papiróloga Leah Mascia e confirmada pelo filólogo clássico Ignasi-Xavier Adiego. A presença do poema em um contexto de sepultamento gera debates acadêmicos sobre sua finalidade. Uma das hipóteses sugere que o papiro tenha servido como uma assinatura profissional do embalsamador, funcionando como uma marca de qualidade e erudição. Outra possibilidade é que a obra tenha assumido uma função ritual de proteção, seguindo tradições de culturas mediterrâneas que transformavam literatura em rito. Além disso, como o achado data de um período de expansão do cristianismo no Egito, o uso de Homero pode ter sido uma forma de resistência cultural e afirmação de identidade pagã.

A tumba onde o papiro foi localizado abrigava 16 múmias, todas com línguas de ouro seladas na boca. Esse detalhe indica que os falecidos pertenciam a uma elite social, possivelmente administradores romanos, comerciantes ricos ou sacerdotes. A língua de ouro era utilizada para que o morto pudesse declarar sua inocência a Osíris durante o julgamento final.

O sítio de Oxyrhynchus, localizado às margens do Bahr Yussef, no Egito Médio, é um dos maiores depósitos de papiros do mundo. Desde que as escavações sistemáticas começaram em 1898, por Bernard Grenfell e Arthur Hunt, a região forneceu mais de 500 mil fragmentos, incluindo comédias gregas, poemas de Safo e trechos do Antigo Testamento.

A descoberta pode impactar a reconstrução crítica da obra de Homero, já que qualquer variação textual no fragmento pode alterar versões aceitas da Ilíada. A campanha de escavações continua, com 24 tumbas ainda fechadas na mesma necrópole. A análise desses novos sepultamentos poderá confirmar se o uso de textos literários era uma prática recorrente ou um evento isolado. Detalhes técnicos adicionais serão apresentados em palestras públicas organizadas pela Faculdade de Filologia da Universidade de Barcelona até 11 de maio de 2026.

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