Hierarquia social na adolescência pode influenciar a saúde mental e o comportamento na vida adulta
A hierarquia social da adolescência impacta a cognição e o comportamento na vida adulta, com a popularidade dividida em categorias como aceitas, rejeitadas, controversas, negligenciadas e medianas. Enquanto a simpatia gera bem-estar, a busca por status via comportamentos de risco eleva a vulnerabilidade a dependências e crimes. A posição escolar não é imutável, podendo ser superada pela reinterpretação de modelos cognitivos
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A hierarquia social estabelecida durante a adolescência possui a capacidade de moldar a percepção cognitiva e o comportamento humano por décadas, influenciando desde a saúde mental até a qualidade dos relacionamentos na vida adulta. Estudos indicam que as lembranças de quem detinha o status de popularidade na escola permanecem mais vívidas na memória do que a recordação de professores ou outros colegas.
A ciência da popularidade e a estratificação social
A compreensão moderna sobre a dinâmica escolar foi impulsionada pelos estudos do psicólogo John Coie na década de 1980. Ao analisar a percepção de crianças sobre seus pares, Coie identificou que a popularidade não é um bloco único, mas dividida em categorias distintas:
- Aceitas: Indivíduos amplamente queridos, geralmente vistos como gentis e solidários.
- Rejeitadas: Pessoas vistas como agressivas, praticantes de bullying ou, inversamente, socialmente ansiosas e vítimas de agressões.
- Controversas: Alunos que dividem opiniões, sendo simultaneamente admirados e detestados, frequentemente assumindo papéis de rebeldes ou "palhaços da turma".
- Negligenciadas: Indivíduos retraídos que raramente são mencionados pelos colegas.
- Medianas: A maior parcela dos alunos (cerca de 40%), que não se destaca em nenhuma das direções anteriores.
Pesquisas demonstram que esses rótulos são persistentes. Aproximadamente metade dos estudantes mantém a mesma classificação social do ensino fundamental ao ingressar no ensino médio.
A transição de valores entre ciclos escolares
A natureza da popularidade sofre alterações drásticas conforme o amadurecimento. No ensino fundamental, o status está ligado à simpatia e ao alinhamento com os valores dos adultos. Já no ensino médio, ocorre uma inversão: comportamentos rebeldes ou a adoção de atitudes pseudomaduras — como o uso precoce de álcool, drogas e envolvimento romântico — tornam-se atalhos para a ascensão social.
Entretanto, essa busca por status tem custos. Mitch Prinstein, professor de psicologia da Universidade da Carolina do Norte, diferencia a simpatia (ser querido) do status (ser poderoso). Enquanto a simpatia está correlacionada a resultados positivos em saúde, carreira e bem-estar psicológico, o alto status baseado em dominância pode gerar efeitos opostos.
Impactos a longo prazo e saúde mental
A obsessão por status na adolescência pode atuar como um preditor de dificuldades futuras. Um estudo de 2015, conduzido por Joseph Allen, acompanhou jovens dos 13 aos 23 anos e observou que aqueles focados em status e comportamentos de risco apresentaram:
- Maior vulnerabilidade à dependência de substâncias.
- Dificuldades em estabelecer vínculos afetivos profundos.
- Maior propensão a comportamentos criminosos.
Por outro lado, a rejeição social prolongada pode alimentar ciclos de depressão e isolamento. Contudo, a ciência também aponta caminhos de resiliência: a experiência da exclusão pode desenvolver uma maior inteligência emocional e empatia. Além disso, a existência de apenas um ou dois amigos próximos durante a adolescência já funciona como um fator protetor para a vida adulta.
A superação dos roteiros sociais
A intensidade do ambiente escolar, onde os jovens convivem com as mesmas pessoas diariamente, grava modelos mentais que podem se tornar profecias autorrealizáveis. A tendência de focar em informações que confirmem expectativas negativas sobre si mesmo pode perpetuar padrões de autossabotagem.
Apesar da força dessas memórias, especialistas afirmam que é possível atualizar esses modelos cognitivos. A reinterpretação de interações sociais e a conscientização sobre os rótulos do passado permitem que indivíduos alterem sua trajetória, provando que a posição ocupada na hierarquia escolar não é um destino imutável.