Insegurança alimentar aumenta risco de obesidade entre mulheres em estudo da UFRJ no Rio
Estudo da UFRJ indica que a insegurança alimentar aumenta o risco de obesidade em mulheres, com prevalência quase três vezes maior nesse grupo. A pesquisa com 1.026 adultos no Rio de Janeiro apontou que o sobrepeso foi 76% superior em mulheres com carência alimentar
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A insegurança alimentar atua como um fator de risco para o desenvolvimento de obesidade especificamente entre mulheres, revelando que a desigualdade de gênero intensifica os danos nutricionais em famílias chefiadas por elas. O achado é fruto de um estudo conduzido pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional (GISAN), vinculado ao Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A análise, baseada em dados do Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro, demonstrou que a vulnerabilidade feminina é acentuada por questões estruturais, como a sobrecarga de responsabilidades domésticas e de cuidado, além do acesso limitado a recursos produtivos. Enquanto a relação entre a falta de segurança alimentar e o ganho de peso foi significativa para as mulheres, o mesmo padrão não foi observado entre os homens.
Impactos nutricionais e disparidades de gênero
Os resultados indicam que a obesidade feminina foi quase três vezes maior em mulheres que enfrentam algum nível de insegurança alimentar. O sobrepeso também apresentou forte correlação com as formas mais severas de carência alimentar, sendo 76% superior em comparação a mulheres de famílias com segurança alimentar plena.
No grupo estudado, as prevalências de sobrepeso e obesidade foram de 38,7% e 32,3%, respectivamente, com índices significativamente mais elevados entre mulheres em situações severas de insegurança alimentar.
Metodologia da pesquisa
O estudo contou com uma amostra de 1.026 indivíduos, composta por chefes de família adultos com idade entre 20 e 59 anos, excluindo-se gestantes. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas presenciais com os responsáveis pela compra e preparo das refeições, abrangendo:
- Características sociodemográficas;
- Medições de peso e estatura para classificação do estado nutricional;
- Aplicação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA).
A EBIA, validada no Brasil desde 2004, utiliza 14 perguntas dicotômicas para classificar os domicílios entre segurança alimentar ou níveis de insegurança leve, moderada e grave.
O cenário no Rio de Janeiro e no Brasil
Embora o IBGE aponte que 21,6 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar em 2023 — com 3,2 milhões em situação de fome —, o cenário no município do Rio de Janeiro apresenta particularidades críticas. Em 2024, a proporção de famílias em situação de fome na cidade superou as estimativas estaduais e nacionais.
Essa realidade contrasta com o peso econômico da capital fluminense, que possui um dos maiores Produtos Internos Brutos (PIB) do país, mas mantém profundas desigualdades sociais internas, especialmente em seus centros urbanos.
A pesquisa, financiada pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro e pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, foi desenvolvida por Aline Alves Ferreira, Luana Teixeira Ghiggino e Rosana Salles da Costa, todas vinculadas à UFRJ. O estudo visa fornecer subsídios para a criação de políticas públicas territoriais que combatam a contradição entre a fome e a obesidade.