Inteligência artificial identifica mais de 500 terremotos sob o glaciar David na Antártida Oriental
Estudo publicado na revista Science identificou mais de 500 terremotos de magnitude entre 1,6 e 3,5 sob o glaciar David, na Antártida Oriental. A detecção ocorreu via inteligência artificial em registros de 49 estações sísmicas coletados entre 2001 e 2015. Os tremores, situados a profundidades de 100 a 150 km, resultam do contato entre a crosta rígida da região oriental e materiais quentes sob a Antártida Ocidental
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O uso de inteligência artificial para reanalisar dados sísmicos revelou que a Antártida Oriental possui uma atividade geológica mais intensa do que se acreditava. Um estudo publicado na revista Science identificou mais de 500 terremotos anteriormente invisíveis sob o glaciar David, uma estrutura de quase 1.100 km responsável por drenar cerca de 4% da camada de gelo da região oriental para o oceano.
A descoberta foi possível graças ao processamento de registros de 49 estações sísmicas coletados em dois intervalos: entre 2001 e 2004, e entre 2012 e 2015. As ferramentas de aprendizado de máquina detectaram tremores com magnitudes entre 1,6 e 3,5, localizados a profundidades de 100 a 150 km. Esse intervalo é classificado como de profundidade intermediária, fenômeno tipicamente associado a zonas de subducção, onde placas tectônicas se sobrepõem, embora, neste caso, a atividade tenha ocorrido longe de fronteiras ativas.
A origem desses movimentos está relacionada ao contato entre a crosta fria e rígida da Antártida Oriental e materiais mais quentes e deformáveis situados sob a Antártida Ocidental. De acordo com Long Ho, geólogo da Universidade de Alabama e autor principal da pesquisa, essa disparidade gera uma alteração brusca na resistência tectônica, concentrando tensões que resultam nos tremores. O pesquisador detalha que o material quente e flutuante do manto superior se estende sob as bordas do glaciar David, elevando e deformando a crosta próxima, o que explica o agrupamento da atividade sísmica no interior de uma placa.
A detecção desses sinais, que haviam passado despercebidos nos registros originais, altera a percepção de que a Antártida seria um território quase isento de sismos. Richard Alley, glaciologista da Penn State, observa que a aparente estabilidade do continente era, na verdade, reflexo da ausência de ferramentas tecnológicas adequadas para a detecção.
Apesar do volume de eventos identificados, a baixa magnitude dos terremotos não representa ameaça imediata ao ecossistema ou à camada de gelo. Contudo, o achado estabelece uma base para investigar como a história geológica do continente, somada ao crescimento, retrocesso e ao peso do gelo, influencia a dinâmica oculta sob a superfície antártica.