Inteligência artificial revela que fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto são mais antigos que o previsto
A ferramenta Enoch, da Universidade de Groningen, utiliza inteligência artificial para datar fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto via análise caligráfica. A metodologia identificou que textos de Daniel e Eclesiastes coincidem com a época de seus autores. O sistema dispensa o carbono-14 e indica que estilos de escrita coexistiram por mais tempo que o previsto
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Uma nova metodologia de análise baseada em inteligência artificial permitiu a datação cronológica de fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto, revelando que alguns desses textos são mais antigos do que as estimativas anteriores. O sistema, desenvolvido pela Universidade de Groningen, possibilita a identificação da idade dos documentos sem a necessidade de datação por carbono-14, preservando a integridade física do material original.
O sistema Enoch e a análise caligráfica
A ferramenta, denominada Enoch, foi treinada por meio de imagens de traços de tinta de manuscritos com datas já confirmadas por métodos físicos. Ao processar e comparar o estilo caligráfico, o modelo consegue prever a antiguidade de textos sem datação conhecida. De acordo com Mladen Popović, coordenador do projeto, essa precisão permite situar os autores da Bíblia no mesmo contexto histórico em que as narrativas foram escritas.
A aplicação dessa tecnologia resultou em descobertas significativas sobre o cânon bíblico:
- Fragmentos dos livros de Daniel e Eclesiastes foram datados na mesma época em que seus autores viveram.
- Estes são os primeiros textos bíblicos a serem datados em paralelo ao período de sua redação, conforme detalhado em artigo publicado na revista PLOS One.
Impactos na cronologia do judaísmo antigo
A pesquisa também trouxe novos dados sobre a escrita da época, revelando que os estilos caligráficos asmoneu e herodiano coexistiram por mais tempo do que se supunha. Essa evidência questiona a teoria de que todos os documentos foram produzidos exclusivamente no assentamento de Qumrão, sugerindo que parte do material pode ter sido copiado em outras regiões antes de ser depositada nas grutas.
Além disso, a IA corrigiu imprecisões de datações passadas. Na década de 1950, alguns manuscritos receberam tratamento com óleo de ricino para aumentar a legibilidade, substância que contaminava as amostras e comprometia os resultados da análise por radiocarbono.
Esses achados demandam a revisão da cronologia do judaísmo antigo, indicando que a evolução da linguagem e da escrita pode ter sido influenciada por dinâmicas políticas e sociais do Mediterrâneo oriental — como as dos ptolomeus, seleucidas ou da dinastia asmoneu — em um período anterior ao que se acreditava.