Ciência

Interação com a arte promove sincronização da atividade neuronal e cardíaca entre indivíduos

22 de Maio de 2026 às 18:06

O neuropsiquiatra Jesús Ramírez Bermúdez analisa como a arte sincroniza atividades neuronais e cardíacas entre pessoas com atenção ativa. A pesquisa integra o estudo do conectoma humano e a relação entre melancolia e criatividade

Interação com a arte promove sincronização da atividade neuronal e cardíaca entre indivíduos
Arquivo pessoal

A interação com a arte, seja por meio da música ou da literatura, promove a sincronização da atividade neuronal e cardíaca entre indivíduos. Esse fenômeno, analisado pelo neuropsiquiatra Jesús Ramírez Bermúdez, ocorre quando as pessoas compartilham a mesma experiência estética e mantêm uma disposição de atenção plena e ativa. A ausência de consciência, como em casos de estado vegetativo, impede que essa sincronização cardíaca aconteça.

O estudo dessas conexões interpessoais faz parte de um campo maior de investigação chamado conectoma humano. O objetivo dessa linha de pesquisa é decifrar como os 100 bilhões de neurônios do cérebro se comunicam e se integram para gerar a consciência de um indivíduo único. Para compreender a formação dessa unidade, Ramírez Bermúdez, que atua na Unidade de Neuropsiquiatria do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do México, analisa casos clínicos que fogem ao senso comum, como alucinações visuais em cegos, lembranças falsas em pacientes com amnésia ou a sensação de morte em pessoas vivas.

Essa investigação sobre a mente também abrange a relação entre a melancolia e a criatividade, tema central da obra *La melancolía creativa*. O autor explora como a melancolia, historicamente vista como um símbolo de sofrimento e desilusão, serve como ponto de partida para a produção artística.

Historicamente, a melancolia foi tratada como diagnóstico médico por mais de dois milênios, originando-se na escola de Hipócrates. O termo deriva do grego *melas* (negro) e *colé* (bile), baseando-se na teoria pré-científica de que a condição seria causada pelo acúmulo de bile negra. Embora não houvesse evidências físicas dessa relação, a teoria persistiu, associando a melancolia a sintomas como medo, tristeza, delírios e perda de sono e apetite, além de vinculá-la a indivíduos excepcionais nas artes, ciências e filosofia, conforme questionamentos de Aristóteles.

O conceito médico de melancolia foi substituído pelo de depressão no século passado. Nesse contexto, Ramírez Bermúdez diferencia a depressão — uma síndrome clínica caracterizada por tristeza profunda e duradoura com múltiplas causas — da tristeza cotidiana. Esta última é descrita como um sentimento transitório e habitual, que faz parte do repertório emocional humano e é superado conforme surgem novos contextos e projetos.

Para o neuropsiquiatra, a melancolia criativa permite que a relação entre a arte e a depressão resulte na construção de algo que recupere o sentido da vida. Ele defende que a criatividade não é um privilégio de poucos, mas uma ferramenta disponível a qualquer pessoa para transformar a rotina em um espaço de reconciliação e prazer.

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