Interferências de rádio na fronteira entre Rússia e Ucrânia comprometem a operação de satélites orbitais
Equipamentos de interferência rádio na fronteira entre Rússia e Ucrânia comprometem a operação de satélites em órbita baixa, afetando a precisão de sistemas como GPS e Galileo. Estudo da Universidade Técnica da Dinamarca indica que a degradação dos sinais acelerou a partir de 2024, prejudicando a previsão do tempo e o monitoramento terrestre. Para monitorar as áreas afetadas, foi criado o mapa gratuito SAT-JAM
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Equipamentos de interferência rádio originados na região de fronteira entre a Rússia e a Ucrânia estão comprometendo a operação de satélites em órbita baixa, atingindo altitudes entre 400 e 800 quilômetros. Um estudo liderado por Kian Bostani Nezhad, da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU), revelou que o alcance desses bloqueadores de sinal é superior ao previsto, afetando a capacidade de naves espaciais de calcularem sua posição exata.
A pesquisa, apresentada na conferência AMOS 2026, analisou dados de missões da NASA, ESA, EUMETSAT e UCAR entre 2021 e 2026, incluindo os satélites Lemur-2 (Spire), Copernicus Sentinel e Swarm. O fenômeno ocorre por meio da emissão de ruído de rádio que mascara as transmissões dos GNSS (sistemas globais de navegação por satélite), como o GPS americano, o Galileo europeu, o GLONASS russo e o BeiDou chinês.
Impactos na infraestrutura espacial e serviços terrestres
A precisão posicional é fundamental para que satélites de observação da Terra identifiquem a localização exata de imagens do terreno e da atmosfera, além de permitir que satélites de comunicação orientem suas antenas. A instabilidade nos sinais prejudica diretamente serviços de previsão do tempo, monitoramento de colheitas, mapas e a resposta a desastres naturais.
A gravidade da situação é evidenciada por dados comparativos:
- Um satélite europeu de observação registra dez vezes mais interrupções na área afetada do que em regiões equivalentes no hemisfério sul.
- O Sentinel-1 A acumulou 788 interrupções de ciclo na região, contra apenas 79 em áreas similares do sul.
- Os satélites Lemur-2 chegam a captar menos de quatro satélites de navegação, quantidade mínima para validar uma posição.
- A radioobservação sobre a Europa — técnica essencial para a meteorologia — opera com apenas 19% a 37% da eficiência observada em outras latitudes.
Evolução e características da interferência
O estudo identificou que o centro da perturbação está localizado aproximadamente nos 36 graus de longitude leste e 51 graus de latitude norte. A análise indica que a degradação dos sinais acelerou significativamente a partir de 2024, surgindo inclusive um padrão de piora nas transmissões durante o período noturno.
Entre 2023 e 2026, os dados do satélite Swarm A mostraram que o número de células com medições interrompidas saltou de 530 para 1.779, enquanto a média de medições afetadas por célula subiu de 10 para 663.
Para causar tal impacto, estima-se que o transmissor possua uma potência na ordem de 383 quilowatts. A facilidade da interferência em órbita deve-se à ausência de obstáculos físicos entre o solo e o satélite, diferentemente do que ocorre em terra, onde edifícios e vegetação barram o sinal. Como as transmissões de navegação chegam fracas à órbita baixa, qualquer emissão intensa do solo consegue mascará-las.
Monitoramento e riscos futuros
Como resultado da pesquisa, foi criado o SAT-JAM, um mapa gratuito que utiliza dados públicos dos satélites Sentinel para monitorar diariamente as áreas de interferência com uma janela de 40 dias. Embora o sistema identifique onde ocorrem os bloqueios, ele não consegue distinguir se a ação é deliberada ou um efeito colateral da guerra, nem identificar o transmissor exato.
O estudo sugere que a natureza da interferência, que abrange diversas frequências, indica o uso de um transmissor de banda larga. Receptores mais antigos, que utilizam técnicas defasadas para ler sinais militares criptografados do GPS, são os mais vulneráveis.
A conclusão dos pesquisadores é que a guerra eletrônica deixou de ser um fenômeno restrito à superfície para afetar a infraestrutura vital no espaço. Diante desse cenário, as próximas gerações de satélites precisarão integrar a mitigação dessas interferências em seus projetos de design como um risco operacional permanente.