Material da Universidade do Texas utiliza o sol para potabilizar a água do Mar Morto
Um hidrogel desenvolvido na Universidade do Texas em Austin converte águas contaminadas em potáveis por meio da radiação solar. O material remove sais e poluentes, atingindo a produção de 25 litros de água por metro quadrado diariamente. A pesquisa foi divulgada na revista Nature Nanotechnology
Pesquisadores da Universidade do Texas em Austin desenvolveram um hidrogel capaz de converter águas contaminadas em potáveis utilizando exclusivamente a luz solar. O material, que atua como uma esponja molecular, demonstrou eficácia até mesmo com a água do Mar Morto, transformando-a em água destilada pura sem a necessidade de eletricidade, baterias ou infraestruturas complexas.
A tecnologia foi criada pelo professor Guihua Yu e pelo pós-doutorando Fei Zhao, ambos integrantes do Departamento de Engenharia Mecânica da Cockrell School of Engineering. O sistema consiste em um polímero híbrido com propriedades semicondutoras e hidrofílicas, que integra dois hidrogéis distintos em uma única estrutura: um responsável por se ligar à água e outro por absorver a radiação solar. Quando exposto ao sol, o material aquece, forçando a evaporação da água armazenada, que então condensa em uma superfície limpa.
O processo elimina, em uma única etapa, contaminantes químicos, microplásticos, patógenos, metais pesados e sais, dispensando as múltiplas fases de filtragem comuns em métodos tradicionais. Em testes de laboratório, o dispositivo alcançou uma produção diária de até 25 litros de água por metro quadrado, volume aproximadamente 12 vezes superior ao de sistemas comerciais de destilação solar. A eficiência foi comprovada ao reduzir a salinidade da água do Mar Morto a níveis que atendem aos padrões de potabilidade da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Devido à sua simplicidade, o material pode ser montado em recipientes domésticos, como bacias ou baldes. Essa característica torna a tecnologia viável para regiões afetadas por desastres naturais, crises humanitárias ou secas, onde o acesso à energia é limitado. A relevância da descoberta é reforçada por dados da ONU, que indicam 30 mil mortes semanais no mundo causadas pelo consumo de água insalubre.
A fabricação do hidrogel utiliza materiais orgânicos abundantes na natureza, o que resulta em um custo de produção extremamente reduzido e elimina a dependência de processos industriais caros ou minerais raros. Em versões aprimoradas, a adição de quitosana ao polímero aumentou a retenção hídrica, permitindo a liberação de 70% da água armazenada em apenas 10 minutos sob luz artificial — um desempenho quatro vezes mais rápido que o de géis absorventes anteriores. Esse resultado indica que a combinação de energia solar e materiais inteligentes pode suprir a necessidade diária de água de uma pessoa em condições reais de luz direta.
O estudo foi publicado na revista Nature Nanotechnology e contou com financiamento da National Science Foundation (NSF), da Camille & Henry Dreyfus Foundation e da Alfred P. Sloan Foundation. A equipe já solicitou a patente e trabalha com o Office of Technology Commercialization da UT Austin para o licenciamento da tecnologia. Apesar dos avanços, a transição para a escala comercial depende da superação de desafios de validação em campo, para testar a eficácia do material diante de variações de umidade, temperatura e qualidade da água, uma vez que os resultados atuais foram obtidos em ambiente laboratorial controlado.