Ciência

Mercado de fusão nuclear pode ultrapassar 350 bilhões de dólares até 2050, estima a IEA

05 de Julho de 2026 às 15:02

Investimentos governamentais e privados em fusão nuclear podem movimentar US$ 350 bilhões até 2050, com destaque para Estados Unidos e China. O setor privado já atraiu € 13 bilhões, enquanto o projeto estatal ITER prevê operação entre 2034 e 2036

Mercado de fusão nuclear pode ultrapassar 350 bilhões de dólares até 2050, estima a IEA
GloboNews

A corrida global pela liderança na fusão nuclear movimenta bilhões de dólares em investimentos de governos e do setor privado, impulsionada pela busca por uma fonte de energia massiva e livre de gases de efeito estufa. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que esse mercado possa ultrapassar US$ 350 bilhões até 2050, reflexo de uma demanda energética crescente, acelerada pela eletrificação da economia e pela alta necessidade de energia dos centros de dados de inteligência artificial.

O processo tecnológico consiste na fusão de núcleos atômicos leves para a criação de novos elementos, liberando calor que é convertido em eletricidade. Diferente da fissão nuclear convencional, a fusão oferece maior segurança, com menor risco de acidentes e resíduos radioativos menos prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente, além de garantir o fornecimento energético independentemente de condições climáticas.

Historicamente, o desenvolvimento da área concentrou-se em iniciativas estatais, como o ITER. O reator experimental no sul da França conta com a participação de 35 países, incluindo China, Rússia, Estados Unidos e nações da União Europeia. Iniciada em 2007, a obra sofreu sucessivos adiamentos e aumento de custos, com previsão de operação agora situada entre 2034 e 2036.

Paralelamente aos projetos públicos, o setor privado expandiu sua atuação. Atualmente, 77 empresas trabalham para viabilizar a fusão nuclear no mercado, conforme dados da F4E. Os Estados Unidos lideram esse grupo com 42 companhias, seguidos pela China, com 8, Reino Unido, com 6, e Alemanha, com 4 startups.

Até o final de 2025, a pesquisa privada em fusão atraiu cerca de € 13 bilhões em investimentos, excluindo fundos públicos. Desse montante, 53% foram destinados a empresas americanas e cerca de um terço a chinesas, mercados que já possuem "unicórnios" avaliados em mais de um bilhão de dólares. As oito empresas europeias detêm pouco mais de € 700 milhões desse capital.

Enquanto a China prioriza o investimento estatal, nos Estados Unidos o avanço é tracionado por investidores privados e gigantes de tecnologia. O Google, por exemplo, apoia a TAE Technologies há mais de uma década com aporte financeiro e engenheiros, além de ter investido na Commonwealth Fusion Systems (CFS) e firmado contrato de compra de energia. De forma semelhante, a Microsoft contratou a compra de eletricidade da Helion Energy, empresa apoiada por Sam Altman, CEO da OpenAI.

Na Alemanha, o governo classificou a fusão nuclear como uma de seis tecnologias-chave para o futuro, prometendo mais de dois bilhões de euros em investimentos públicos nesta legislatura. O país conta com um ecossistema que integra instituições de pesquisa, indústrias e startups. Um exemplo é a Focused Energy, fundada em 2021 por Markus Roth, professor da TU Darmstadt, que utiliza a tecnologia a laser. A viabilidade desse método foi comprovada em 2022, nos Estados Unidos, quando se obteve, em escala laboratorial, mais energia de uma reação de fusão do que a necessária para iniciá-la.

Apesar do avanço, a implementação comercial enfrenta barreiras. A criação de cadeias de fornecimento precisas e em escala industrial, como a produção de sistemas a laser, é um desafio central. Além disso, a geração efetiva de eletricidade ainda demanda tempo e as startups alertam para a insuficiência de recursos financeiros para a manutenção do desenvolvimento a longo prazo. Há, ainda, a percepção de que o ritmo tecnológico pode não ser rápido o suficiente para que a Europa atinja suas metas de proteção climática.

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