Ciência

Mudança na digestão de animais primitivos impulsionou a diversificação dos ecossistemas nos oceanos terrestres

04 de Agosto de 2026 às 12:05

A revolução fecal do Cambriano, ocorrida há 540 milhões de anos, alterou a distribuição de nutrientes nos oceanos por meio de resíduos orgânicos diversificados. Segundo estudo na Trends in Ecology & Evolution, esse processo facilitou a criação de ecossistemas complexos e a diversificação da vida marinha

Mudança na digestão de animais primitivos impulsionou a diversificação dos ecossistemas nos oceanos terrestres
Poozeum/Wikimedia Commons

A alteração nos hábitos alimentares e nos processos de digestão dos primeiros animais, ocorrida há aproximadamente 540 milhões de anos, pode ter sido um fator determinante para a transformação dos oceanos terrestres. De acordo com uma revisão científica publicada na revista Trends in Ecology & Evolution, o incremento no volume e na diversidade de detritos orgânicos produzidos nesse período facilitou a distribuição de nutrientes pelas águas, viabilizando a criação de ecossistemas mais complexos.

Esse fenômeno é denominado pelos pesquisadores como revolução fecal do Cambriano. O processo coincidiu com a chamada explosão cambriana, momento em que a vida marinha passou por uma diversificação acelerada e diversos grupos principais de animais surgiram.

Dinâmica de nutrientes e a evolução digestiva

A evolução de sistemas digestivos mais sofisticados permitiu que os animais consumissem tipos variados de alimentos, resultando na produção de resíduos maiores e mais diversificados. Essas fezes atuaram como pacotes de matéria orgânica que, ao afundarem, transportaram nutrientes da superfície para as camadas mais profundas do oceano, servindo de alimento para outros organismos.

Essa mudança estrutural acelerou a circulação de carbono e nutrientes entre a superfície, as zonas profundas e o leito marinho. Para os autores do estudo, esse mecanismo ajudou a estabelecer a base dos ecossistemas marinhos contemporâneos, onde a descida de partículas e restos orgânicos continua a alimentar diferentes regiões oceânicas.

Evidências fósseis e predação

A análise científica baseou-se em dados de mais de 35 depósitos de fósseis globais. Foram analisados coprólitos (fezes fossilizadas) que variam de dimensões microscópicas a alguns centímetros. A presença de fragmentos de animais e conchas nesses resíduos comprova que as interações alimentares já eram diversificadas na época.

Outras evidências concretas incluem:

  • Restos de presas preservados nos sistemas digestivos de fósseis, indicando a prática da predação.
  • Estruturas especializadas em artrópodes primitivos, desenvolvidas para processar diferentes tipos de alimento.

Embora o transporte de nutrientes via fezes seja apresentado como um acelerador da diversificação da vida, o estudo ressalta que este não foi o único fator. A explosão cambriana também foi influenciada por mudanças ambientais, pelo avanço da predação e pelo aumento dos níveis de oxigênio nos oceanos.

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