NASA comprova que formato do casco permite pousos em pista sem a necessidade de asas
A NASA validou, a partir de 1963, a tecnologia de corpo sustentador para permitir pousos de veículos espaciais em pistas sem o uso de asas. O protótipo M2-F1 realizou mais de 70 voos planados, comprovando que o formato do casco gera sustentação aerodinâmica. Os testes serviram de base técnica para o desenvolvimento do ônibus espacial
A validação do conceito de "corpo sustentador" (*lifting body*), iniciada pela NASA em 1963, alterou a compreensão sobre a reentrada de veículos espaciais na atmosfera terrestre. Através de testes realizados no Flight Research Center de Edwards, na Califórnia, a agência comprovou que a sustentação aerodinâmica poderia ser gerada pelo formato do casco de uma aeronave, eliminando a necessidade de asas convencionais para estabilizar a trajetória e permitir pousos em pistas.
Essa abordagem surgiu a partir de estudos conduzidos no final dos anos 1950, no atual Ames Research Center, que indicaram que formas rombudas modificadas resistiriam ao calor da reentrada enquanto produziam sustentação. O modelo contrastava com as cápsulas dos programas Mercury e Gemini, que dependiam de retornos balísticos e pousos no oceano, limitando a manobrabilidade e exigindo operações de recuperação.
O primeiro protótipo a testar essa teoria foi o M2-F1. Com 6,1 metros de comprimento e fuselagem arredondada, o veículo ficou conhecido como "banheira voadora". Sob a liderança do engenheiro Dale Reed, a equipe optou por uma construção pragmática e de baixo custo, utilizando madeira compensada sobre uma estrutura tubular metálica, o que facilitava modificações rápidas.
Para mitigar riscos antes dos voos reais, o M2-F1 passou por ensaios em solo no lago Rogers. O veículo era rebocado por um Pontiac Catalina modificado, capaz de superar 190 km/h, permitindo que os pilotos avaliassem a estabilidade e a resposta dos comandos enquanto o corpo gerava sustentação parcial.
A fase de voo foi executada com o auxílio de um Douglas C-47 Skytrain. O protótipo era levado a 3.000 metros de altitude e liberado para realizar voos planados. Sem motor próprio, o controle da descida dependia exclusivamente da aerodinâmica e de superfícies móveis na cauda, operadas por pilotos como Bruce Peterson e Milt Thompson. Ao longo de mais de 70 voos, o programa demonstrou que era possível realizar pousos controlados em pista sem o uso de asas.
Apesar de enfrentar oscilações laterais e uma baixa razão de planeio, que restringia a margem de erro na aproximação final, os dados obtidos foram fundamentais. O sucesso do M2-F1 e de sucessores, como o M2-F2 e o HL-10, transformou a reentrada atmosférica de um evento passivo e dependente de paraquedas em uma fase de voo ativa e precisa.
Esses experimentos serviram de base técnica para o desenvolvimento do ônibus espacial na década de 1970. Embora o Space Shuttle possuísse asas, sua fuselagem incorporou os princípios de sustentação testados no M2-F1, especialmente nas fases iniciais de reentrada a velocidades superiores a 25.000 km/h.
O legado do programa estende-se à formação de especialistas em voos experimentais e à validação de que protótipos simples e de baixo custo podem viabilizar inovações complexas. Atualmente, os conceitos de corpo sustentador permanecem influentes no desenvolvimento de cápsulas reutilizáveis e veículos hipersônicos.