Neurociência indica que memórias de traumas não são herdadas biologicamente de pais para filhos
A neurociência indica que memórias de traumas não são herdadas biologicamente, mas há transmissão de sensibilidade ao estresse via fatores ambientais, biológicos e comportamentais. O desenvolvimento infantil é influenciado pela interação social e a programação pré-natal pode impactar a regulação emocional do filho. A biologia transmite possibilidades de resposta, sem determinar o destino do indivíduo
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A neurociência atual indica que não existe evidência de que memórias específicas de traumas, como guerras ou perdas, sejam herdadas biologicamente de pais para filhos. Embora a ideia de herança de lembranças autobiográficas seja difundida, o que ocorre na realidade é a transmissão de uma maior sensibilidade ao estresse e ao medo, influenciada por fatores ambientais, biológicos e comportamentais.
O funcionamento cerebral diante do trauma
Experiências traumáticas que resultam em transtorno de estresse pós-traumático não ficam armazenadas em uma única região do cérebro. Estudos de neuroimagem revelam que tais eventos provocam alterações em redes complexas, envolvendo a amígdala (responsável pela detecção de ameaças), o córtex pré-frontal (que regula emoções e suprime medos desnecessários) e o hipocampo (essencial para a contextualização de memórias).
Essas estruturas integram as redes de saliência, de controle executivo e de processamento autorreferencial. Como essas mudanças ocorrem na plasticidade dos circuitos neuronais — os chamados engramas — do indivíduo que viveu o evento, e não nos gametas, não há mecanismo biológico conhecido capaz de copiar cenas ou emoções específicas para os descendentes.
Influências ambientais e desenvolvimento infantil
A transmissão de sentimentos de perigo ocorre, primordialmente, por meio da interação social. O cérebro infantil se desenvolve observando posturas, silêncios e expressões faciais dos cuidadores. Uma meta-análise demonstrou que bebês tendem a evitar estímulos novos quando percebem reações de medo em seus pais, embora esses efeitos sejam de intensidade pequena ou moderada.
Apesar dessa influência, o desenvolvimento de um transtorno nos filhos não é inevitável. O desfecho depende de variáveis como o temperamento da criança, o apoio social, experiências posteriores e a capacidade de adaptação do sistema nervoso.
Programação pré-natal e epigenética
Durante a gestação, o estresse intenso da mãe pode provocar inflamações e alterar níveis hormonais e o metabolismo da placenta. Esse cenário configura uma programação pré-natal, expondo o feto a alterações imunes e metabólicas que podem impactar a conectividade cerebral e a regulação emocional do filho. No entanto, é complexo isolar esses efeitos de outros fatores, como nutrição, pobreza e saúde materna.
No campo da epigenética, que estuda a regulação dos genes sem alterar a sequência do DNA (como a metilação), a comprovação em humanos é desafiadora. Enquanto em animais há evidências de sinais ambientais transmitidos via gametas, em humanos a cultura, a genética e as condições sociais se sobrepõem.
Um estudo recente com 131 membros de três gerações de famílias sírias identificou padrões de metilação ligados à exposição à violência. Contudo, a pesquisa não prova a herança do trauma mental, pois utilizou células bucais, teve amostragem reduzida e requer validação, já que a marca epigenética pode ser apenas um indicador de exposição, e não a causa do trauma.
Possibilidades biológicas
A conclusão científica é que a biologia transmite possibilidades, e não condenações. A sensibilidade ao estresse pode ser influenciada por genes ou por gravidezes complicadas e ambientes familiares perigosos, mas a capacidade de adaptação humana permanece central. Relacionamentos seguros, melhores condições de vida e terapias eficazes são capazes de modificar os circuitos do medo, reforçando que a carga genética não determina o destino do indivíduo.