Neurocientista lidera o primeiro mapeamento dos nervos do clitóris em projeto internacional de anatomia
A neurocientista Ju Young Lee liderou o primeiro mapeamento dos nervos do clitóris no Centro Médico da Universidade de Amsterdã. O estudo integra o projeto internacional Human Organ Atlas Hub para a criação de um mapa tridimensional do corpo humano
A neurocientista coreana Ju Young Lee liderou o primeiro mapeamento dos nervos do clitóris, preenchendo uma lacuna histórica na anatomia humana. O estudo foi desenvolvido no Centro Médico da Universidade de Amsterdã, como parte do Human Organ Atlas Hub (HOAHub), projeto internacional que visa criar um mapeamento tridimensional do corpo humano.
A iniciativa surgiu após Lee, que possui mestrado e doutorado pelo Instituto Max Planck, na Alemanha, observar a ausência de pesquisas sobre a interação entre os nervos de órgãos ginecológicos e o cérebro durante a maior conferência europeia de neurociência. A pesquisadora identificou que, enquanto a urologia concentrou seus estudos no pênis e a ginecologia priorizou órgãos reprodutivos como útero e ovários, o clitóris permaneceu negligenciado por ambas as áreas. Essa disparidade é evidenciada pelo volume de publicações científicas, sendo que a glande peniana possui cerca de 20 vezes mais artigos do que a glande clitoriana, apesar de o mapeamento do pênis ter ocorrido há três décadas.
Além do desafio técnico, a trajetória de Lee evidencia o viés eurocêntrico da ciência, que frequentemente marginaliza contribuições de pesquisadores fora da Europa e do Norte Global. Embora tenha liderado o projeto, a autoria de Lee é frequentemente omitida em reportagens, que atribuem a descoberta genericamente a cientistas da Universidade de Amsterdã, e sua visibilidade em bases de dados como o Google Acadêmico concentra-se apenas no período em que passou a colaborar com instituições europeias.
Para a cientista, a repercussão positiva do estudo indica que a comunidade científica e o público aguardavam por essa discussão. Lee defende que a área necessita de maior financiamento e de uma reforma no ensino da anatomia do clitóris, que é insuficiente inclusive para profissionais da medicina. Como forma de ampliar essa conscientização, a pesquisadora mantém o podcast IGWA Women — nome derivado de um termo coreano para especialização em ciências —, onde discute saúde da mulher, filosofia da ciência e machine learning, integrando a divulgação pública ao trabalho de laboratório.