NOAA registra a menor extensão máxima do gelo marinho do Ártico em 47 anos
O ice shove ocorre quando ventos, correntes e temperatura deslocam massas de gelo em direção à costa. A NOAA registrou em 2025 a menor extensão máxima anual do gelo marinho do Ártico em 47 anos. No noroeste do Alasca, o fenômeno causou a erosão de 3,5 quilômetros de litoral
O fenômeno conhecido como *ice shove* ocorre quando a combinação de ventos fortes, correntes marinhas e variações de temperatura desloca massas de gelo acumuladas na água em direção à terra. Embora seja popularmente chamado de “tsunami de gelo” devido ao impacto visual, o evento difere de um tsunami tradicional, pois não é originado por terremotos ou deslocamentos no fundo do mar, mas sim pelo movimento de gelo quebrado e compactado que, ao atingir a margem, se sobrepõe e avança sobre a faixa costeira.
Nas regiões árticas, os povos Iñupiat utilizam o termo *ivu* para descrever essas paredes de gelo que podem atingir estradas, praias e edificações. No Alasca, esse processo está ligado à dinâmica do *shorefast ice*, a camada de gelo fixo à costa. Quando essa cobertura permanece espessa, ela atua como uma barreira natural contra tempestades e ondas; contudo, quando o gelo se rompe ou afina, o litoral torna-se mais vulnerável à ação direta do mar e ao deslocamento de blocos congelados.
A relação entre o *ice shove* e o aquecimento global é complexa. O fenômeno é intrínseco à dinâmica de ambientes frios e existia antes do aquecimento acelerado. No entanto, órgãos científicos observam que as condições que influenciam o risco costeiro no Ártico estão mudando. A extensão do gelo marinho diminuiu nas últimas décadas, com a perda de camadas mais antigas e espessas. A NOAA registrou em 2025 que a extensão máxima anual do gelo marinho do Ártico foi a menor em 47 anos de monitoramento por satélite. Com a predominância de gelo mais fino e fragmentado, as massas congeladas respondem de forma distinta a tempestades e ventos.
A Universidade do Alasca Fairbanks indica que a rápida perda de gelo marinho prolonga a vulnerabilidade de comunidades costeiras, já que ondas e ventos atuam por mais tempo em áreas anteriormente protegidas. Pesquisas sobre o *ice push* no noroeste do Alasca documentaram a erosão de 3,5 quilômetros de litoral e o deslocamento de detritos para altitudes de até 6,2 metros acima do nível médio da maré alta.
O risco para as infraestruturas não se limita à altura das paredes de gelo, mas à pressão exercida pela massa acumulada, capaz de danificar cercas, depósitos e estruturas leves, além de bloquear acessos em comunidades remotas, prejudicando o transporte e a subsistência. Fora do Ártico, o fenômeno também é registrado em rios e lagos congelados no Canadá e no norte dos Estados Unidos, onde ventos fortes empurraram gelo sobre vias e residências.
Em Utqiagvik, no extremo norte do Alasca, a cidade serve como ponto estratégico para monitorar essas mudanças climáticas e costeiras. O acompanhamento realizado por pesquisadores da Universidade do Alasca Fairbanks integra imagens de satélite, medições de campo e o conhecimento geracional de moradores indígenas.
Apesar da tecnologia, a previsão desses eventos ainda é limitada devido à rapidez dos deslocamentos e à necessidade de analisar múltiplas variáveis, como relevo, profundidade da água e estado da camada de gelo. Como a contenção física de grandes volumes de gelo é difícil, a estratégia de mitigação foca no planejamento do uso do solo e na construção de estruturas em áreas elevadas e afastadas da linha d’água.
No litoral ártico, o *ice shove* soma-se a outros riscos, como a erosão costeira e o degelo do permafrost. A instabilidade do solo congelado compromete fundações, pistas de pouso e tubulações, intensificando os desafios de adaptação para as populações locais.