Núcleo de sedimentos na China revela condições climáticas da Terra durante o período Cretáceo
Um núcleo sedimentar de 7 quilômetros na Bacia de Songliao, na China, registrou as condições climáticas do período Cretáceo. Os dados indicam a ausência de calotas polares, oceanos 10 °C mais quentes e concentrações de dióxido de carbono superiores aos níveis pré-industriais. O material serve para calibrar simulações climáticas modernas sobre altas emissões de CO₂
A recuperação de um núcleo sedimentar contínuo de 7 quilômetros na Bacia de Songliao, no nordeste da China, proporcionou um registro inédito sobre as condições climáticas da Terra durante o período Cretáceo, ocorrido entre 145 e 66 milhões de anos atrás. O projeto, liderado pelo professor Wang Chengshan, da China University of Geosciences, integra o International Continental Scientific Drilling Program e oferece um arquivo natural raro de um planeta sob efeito de estufa extrema.
Diferente de registros marinhos, que costumam ser fragmentados, o material extraído da Bacia de Songliao preserva uma sequência ininterrupta de eventos terrestres. Essa preservação foi possível porque a região abrigava um vasto lago continental, ambiente que protegeu as camadas de sedimentos contra a erosão e evitou a mistura de materiais comum em correntes oceânicas.
Os dados revelam que, no Cretáceo, a Terra operava em um sistema térmico radicalmente distinto do atual. Não existiam calotas polares e a temperatura dos oceanos era, estima-se, 10 °C superior à contemporânea. A atmosfera apresentava concentrações de dióxido de carbono entre duas e quatro vezes maiores do que os níveis pré-industriais, resultando em maior evaporação, alterações no ciclo hidrológico e uma distribuição diversa de ecossistemas.
A análise de fósseis microscópicos, composição química e variações nos sedimentos ao longo dos 7 quilômetros de núcleo permite reconstruir a evolução ambiental sem interrupções. Esse volume de informações serve como base concreta para calibrar simulações climáticas modernas, substituindo extrapolações teóricas por dados reais de um período em que o planeta viveu condições extremas.
O estudo busca compreender a resposta do sistema climático a altas concentrações de CO₂, cujos níveis do Cretáceo assemelham-se a projeções de modelos para o final deste século em cenários de emissões elevadas. Embora a Terra ainda possua gelo nos polos e temperaturas moderadas, a pesquisa demonstra que existem precedentes naturais para níveis elevados de gases de efeito estufa, diferenciando-se apenas a velocidade com que tais condições podem ser atingidas atualmente.
A escala temporal do arquivo, que abrange milhões de anos, permite analisar a evolução do clima e a resposta dos ecossistemas em um intervalo muito superior aos registros históricos humanos. A iniciativa integra uma rede internacional que combina dados de perfurações profundas, amostras de gelo e sedimentos oceânicos para mapear a história ambiental global, posicionando a Bacia de Songliao como peça central na compreensão de cenários climáticos extremos.