Obras de barreira fronteiriça nos Estados Unidos causam danos irreversíveis a geoglifo indígena no Arizona
Máquinas da obra da barreira entre Estados Unidos e México causaram danos irreversíveis ao geoglifo Praias Intaglio, no Arizona, em 23 de abril de 2026. A estrutura, que representa um peixe de 83 metros, possui datação estimada entre 6.500 e 7.300 anos
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A construção da barreira fronteiriça entre os Estados Unidos e o México provocou danos irreversíveis nas Praias Intaglio, um geoglifo indígena localizado no deserto do Arizona. O incidente ocorreu em 23 de abril de 2026, quando máquinas pesadas utilizadas nas obras da estrutura atravessaram o sítio arqueológico.
A obra afetou a representação de um peixe com cerca de 83 metros de extensão. A figura foi concebida originalmente através da remoção de uma camada escura da superfície de um antigo campo de lava, tornando a imagem visível no terreno.
Datação e relevância arqueológica
Um estudo recente conduzido por David S. Whitley e Ronald I. Dorn, publicado no SAA Archaeological Record, indica que as Praias Intaglio podem ser o geoglifo datado cientificamente mais antigo de todas as Américas. A análise estima que a estrutura tenha entre 6.500 e 7.300 anos, o que a tornaria cerca de 2.000 anos mais antiga que as pirâmides do Egito e 1.500 anos anterior ao início de Stonehenge.
Para chegar a esses números, os pesquisadores utilizaram amostras coletadas no local em 1979, aplicando a técnica de microlaminagem do verniz de rocha. O método consiste em:
- Analisar camadas microscópicas formadas sobre rochas expostas;
- Comparar concentrações de manganês e tonalidades das camadas com registros de mudanças climáticas regionais (períodos úmidos e secos);
- Cruzar a sequência encontrada com uma cronologia regional para determinar a idade.
Embora o processo guarde semelhanças com a dendrocronologia, os autores ressaltam que a técnica não possui a mesma precisão temporal que a análise de anéis de crescimento de árvores. Como o verniz analisado se formou após a criação da figura, a estimativa sugere que o geoglifo seja ainda mais antigo do que o intervalo de 6.500 a 7.300 anos.
Impacto cultural e ambiental
Para as comunidades indígenas da região de Cabeza Prieta, como os Tohono O’odham e os Hia-Ced O’odham, o local possui um valor histórico e cultural profundo. Verlon Jose, presidente dos Tohono O’odham, classificou a destruição como uma perda devastadora e evitável, enfatizando que a história do povo O’odham é o pilar de sua identidade.
O episódio reacendeu o alerta sobre a preservação de outros pontos sagrados ao longo do traçado da barreira, a exemplo de Quitobaquito Springs, situado no Monumento Nacional Organ Pipe Cactus.
Diante da impossibilidade de recuperar o patrimônio destruído, Russ McSpadden, do Center for Biological Diversity, questionou as autoridades sobre a autorização dos trabalhos, as advertências emitidas e a falha nas medidas de proteção do sítio.