Ciência

Oceano Austral entra em estado climático inédito com aumento de temperatura e de salinidade

30 de Abril de 2026 às 06:22

Estudo da Universidade de Southampton indica que o Oceano Austral registrou aumento de temperatura e salinidade a partir de 2015. A análise de satélites revelou a perda de gelo marinho equivalente à área da Groenlândia e a redução da capacidade de absorção de dióxido de carbono. O fenômeno alterou a dinâmica de transporte de calor e carbono nas profundezas oceânicas

O Oceano Austral entrou em um estado climático inédito, apresentando mudanças abruptas que não haviam sido previstas por modelos meteorológicos. Um estudo da Universidade de Southampton, publicado em 30 de junho de 2025 no *Proceedings of the National Academy of Sciences*, documentou que a superfície do oceano ao redor da Antártida, que se tornava mais fria e doce desde os anos 1980, passou a registrar temperaturas mais altas e maior salinidade a partir de 2015.

A análise, conduzida pelo Dr. Alessandro Silvano e sua equipe com dados de satélites europeus entre 2015 e 2024, revelou a perda de uma área de gelo marinho equivalente ao tamanho da Groenlândia. Esse fenômeno desencadeou um ciclo de retroalimentação: a redução do gelo diminui a oferta de água doce, o que eleva a salinidade superficial e facilita a subida do calor armazenado nas profundezas para a superfície, dificultando a formação de novo gelo.

Esse equilíbrio físico é crucial, pois a densidade da água em regiões polares é controlada pela salinidade. Águas mais salgadas, sendo mais densas, afundam e transportam calor e carbono para as profundezas. Até 2015, o derretimento do gelo criava uma camada de água doce superficial que isolava o calor nas profundezas. Com a quebra dessa estratificação, o calor e o carbono acumulados voltaram à superfície, reduzindo a capacidade do oceano de absorver novas emissões de dióxido de carbono.

O Oceano Austral é o principal dissipador de calor do planeta e um dos maiores sumidouros de carbono, absorvendo cerca de 75% do calor excedente das emissões humanas e 40% do CO₂ dissolvido nos oceanos. A alteração em sua dinâmica impacta a circulação termohalina, sistema responsável pela distribuição de sal, calor e carbono por todos os oceanos do mundo.

A aceleração do declínio do gelo marinho tornou-se evidente a partir de 2022, com recordes mínimos sucessivos, culminando no verão de 2023, que registrou a menor extensão de gelo já observada por satélites. Um indicador crítico dessa transformação foi o reaparecimento da polynya de Maud Rise no Mar de Weddell, uma abertura no gelo que não ocorria desde a década de 1970 e que intensifica a troca de gases e calor entre o oceano profundo e a atmosfera.

Os pesquisadores atribuem a reversão da tendência climática a fatores como a redução do gelo marinho, mudanças nos padrões de vento e o aquecimento de camadas intermediárias do oceano. As consequências já são notadas em padrões atmosféricos, com o aumento de tempestades na Nova Zelândia. Além disso, a dinâmica pode influenciar a temperatura do Atlântico Sul e a Zona de Convergência do Atlântico Sul, o que possivelmente alterará os regimes de chuvas no Brasil.

A Universidade de Southampton reforça a importância do monitoramento via satélites e instrumentos autônomos para acompanhar a temperatura e a salinidade. Atualmente, não há dados suficientes para determinar se o sistema pode recuperar seu equilíbrio ou se a transformação é permanente.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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