Ondas cerebrais lentas durante a vigília podem indicar risco precoce de Alzheimer, revela estudo francês
Pesquisadores do Hospital Pitié-Salpêtrière identificaram que ondas lentas cerebrais durante a vigília indicam risco de doença de Alzheimer. O estudo com 300 voluntários mostrou que a maior amplitude dessas ondas correlaciona-se ao acúmulo de proteína beta-amiloide. O monitoramento via EEG pode servir como ferramenta complementar para antecipar diagnósticos
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Pesquisadores do Instituto do Cérebro do Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris, identificaram que a presença de ondas lentas cerebrais durante o estado de vigília pode servir como um indicador precoce para o risco de desenvolvimento da doença de Alzheimer. O estudo investigou a relação entre esses padrões elétricos, normalmente associados ao sono profundo, e a posterior formação de depósitos da proteína beta-amiloide no cérebro.
A atividade cerebral é monitorada por meio do eletroencefalograma (EEG), que registra ondas elétricas cuja frequência e amplitude mudam conforme a tarefa executada. Embora sejam típicas do sono, as ondas lentas também ocorrem quando a pessoa está acordada, especialmente em momentos de alta concentração, esforço cognitivo, lapsos de atenção ou privação de sono.
Correlação com a neurodegeneração
Para analisar essa dinâmica, a equipe acompanhou cerca de 300 voluntários, com idades entre 70 e 85 anos, que apresentavam queixas de memória, mas mantinham resultados normais em testes neuropsicológicos. O grupo foi submetido a avaliações cognitivas, EEG em repouso e exames de imagem, como tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) e ressonância magnética, para detectar sinais de neurodegeneração.
Após dois anos de acompanhamento, os cientistas observaram que os participantes que não possuíam placas amiloides no início da pesquisa, mas exibiam ondas lentas de maior amplitude, foram os que acumularam mais depósitos da proteína ao longo do período.
Impacto no diagnóstico e tratamento
A descoberta sugere que o monitoramento dessas ondas pode se tornar um fator preditivo para antecipar diagnósticos e retardar a manifestação de sintomas. Pierre Champetier, pesquisador do instituto e autor do estudo, pontua que a sincronização de neurônios em certas regiões cerebrais, simulando o estado de sono durante a vigília, é fundamental para compreender a patologia.
O objetivo não é substituir os métodos diagnósticos atuais — que combinam relatos de familiares, testes cognitivos e biomarcadores —, mas oferecer uma ferramenta complementar. A relevância reside na precisão da progressão da doença, já que alguns pacientes apresentam biomarcadores positivos, mas mantêm a estabilidade cognitiva.
Essa precisão é crucial para a aplicação de terapias baseadas em anticorpos antiamiloides. Como esses medicamentos possuem custo elevado, riscos de efeitos colaterais e eficácia limitada a estágios iniciais, a identificação rigorosa de quem realmente evoluirá para a doença evita que pessoas estáveis sejam expostas a riscos desnecessários.
Relação com a saúde do sono
O estudo também reforça a conexão entre a qualidade do descanso e a saúde cerebral. Distúrbios crônicos, como a insônia persistente e a apneia do sono, elevam o risco de diversas patologias neurodegenerativas a longo prazo.
Embora algumas mudanças no sono sejam naturais do envelhecimento, alterações bruscas no padrão de despertar ou distúrbios não diagnosticados são apontados como sinais de alerta que demandam acompanhamento médico.