Ciência

Pesquisa indica que pessoas que se identificam como canhotas tendem a ter inclinação política à esquerda

25 de Setembro de 2026 às 06:01 3 min de leitura

Pesquisa em 18 países ocidentais associou a identidade de canhotos a posicionamentos políticos mais à esquerda. A correlação desaparece quando a lateralidade é analisada por atividades biológicas, indicando que a influência decorre da autopercepção e não de fatores neurológicos

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Pesquisa indica que pessoas que se identificam como canhotas tendem a ter inclinação política à esquerda
Emily Santos/g1

Uma pesquisa realizada em 18 países ocidentais, incluindo Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e Espanha, identificou uma associação estatística entre a lateralidade e a orientação política. O estudo revelou que pessoas que se identificam como canhotas tendem a se posicionar mais à esquerda em uma escala política de dez pontos.

A diferença observada é de aproximadamente meio ponto para a esquerda em comparação aos destros. Para fins de comparação, esse impacto é superior à disparidade de gênero encontrada na mesma amostra, na qual as mulheres se posicionaram 0,4 ponto mais à esquerda que os homens.

Identidade versus Biologia

O ponto central da descoberta reside na distinção entre a autopercepção e a prática biológica. Quando os pesquisadores analisaram a lateralidade por meio de atividades cotidianas — como escovar os dentes, escrever, arremessar bolas ou usar tesouras —, a correlação com as opiniões políticas desapareceu.

Esse dado indica que a inclinação política não decorre de diferenças neurológicas profundas ou da biologia do uso da mão, mas sim do fato de o indivíduo se perceber e se identificar como canhoto. Essa tendência é ainda mais evidente em países latinos, como Itália, Espanha e França, onde a divisão simbólica entre "esquerda" e "direita" é mais central no debate público.

Hipóteses para a inclinação política

A análise sugere três caminhos possíveis para explicar por que a identidade de ser canhoto influencia a visão política:

  • Egotismo implícito: A tendência inconsciente de preferir coisas que se assemelham ao próprio indivíduo. Como a palavra "esquerda" define tanto a lateralidade quanto a posição política, canhotos podem desenvolver uma afinidade sutil e inconsciente com movimentos de esquerda.
  • Experiência de minoria: Canhotos representam entre 10% e 15% da população e historicamente enfrentaram estigmas, como a obrigatoriedade de escrever com a mão direita em escolas francesas até a década de 1970. Essa vivência como minoria pode fomentar valores de tolerância e proteção a grupos marginalizados, pautas comuns à esquerda.
  • Organização cerebral: Embora a distribuição de funções cerebrais em canhotos possa favorecer a flexibilidade cognitiva e a abertura a novas ideias, os resultados do estudo relativizam essa tese, já que a associação política só ocorre na autodeclaração, e não no uso físico da mão.

Fatores individuais e comportamento eleitoral

O estudo se insere em uma linha de pesquisa da ciência política que busca expandir a análise de preferências eleitorais para além de renda, idade e escolaridade. Trabalhos anteriores, como os de Mondak (2010) e Gerber (2010), já relacionavam a extroversão e a abertura a experiências ao comportamento político, enquanto Alford, Funk e Hibbing (2005) investigaram a hereditariedade biológica da ideologia através de estudos com gêmeos.

A pesquisa ressalta que as opiniões políticas podem ser influenciadas por associações simbólicas e experiências sociais inconscientes. No entanto, os autores enfatizam que os canhotos não formam um grupo eleitoral homogêneo, citando como exemplo as posições políticas opostas de Benjamin Netanyahu e Fidel Castro, ambos canhotos.

A descoberta abre precedentes para a investigação de outras características cotidianas que possam moldar a ideologia, como a hipótese de que homens com irmãs tendam a posições mais conservadoras.

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