Pesquisa usará transmissores via satélite para mapear deslocamentos de baleias-jubarte no Espírito Santo
Dez baleias-jubarte serão monitoradas por transmissores via satélite no litoral do Espírito Santo entre 2027 e 2028. O estudo, financiado com R$ 789.170, visa mapear deslocamentos dos cetáceos para reduzir colisões com embarcações. A pesquisa abrangerá a região entre Serra e Guarapari
Uma pesquisa pioneira no Espírito Santo utilizará transmissores via satélite em dez baleias-jubarte para mapear seus deslocamentos no litoral capixaba. O objetivo central do estudo é identificar pontos de interseção entre as rotas dos cetáceos e o tráfego de grandes embarcações, visando reduzir a incidência de colisões fatais.
A iniciativa focará na temporada reprodutiva, período em que as jubartes — que podem atingir 16 metros de comprimento e 40 toneladas — migram para a costa brasileira para procriação e amamentação. Em 2025, a estimativa foi de até 97 nascimentos de filhotes na região.
Monitoramento e Tecnologia
Prevista para as temporadas de 2027 e 2028, a marcação será realizada pelo biólogo Juan Pablo Torrez-Flores. O dispositivo, fabricado nos Estados Unidos, pesa menos de 100 gramas e será fixado na região dorsal do animal por meio de uma balestra, prendendo-se à camada externa de gordura. O equipamento deve operar por um a dois meses, enviando dados de localização, profundidade de mergulho e distância da costa antes de se soltar naturalmente.
Diferente de estudos anteriores no Brasil, que priorizavam padrões migratórios, este projeto busca entender a utilização do espaço marinho durante a permanência dos animais no estado. O monitoramento abrangerá a faixa entre Serra, Vitória, Vila Velha e Guarapari, estendendo-se até 23 milhas náuticas da costa.
Conflito com o Tráfego Marítimo
A necessidade do estudo é evidenciada pelo intenso fluxo portuário da região. De acordo com o Atlas Portuário do Espírito Santo 2026, o Complexo Portuário de Tubarão registrou 982 atracações em 2025, distribuídas entre quatro terminais:
- Porto de Tubarão: 528 atracações (navios de até 365 metros);
- Terminal de Produtos Siderúrgicos: 259 atracações;
- Terminal de Praia Mole: 147 atracações (navios de até 300 metros);
- Terminal de Barcaças Oceânicas: 48 atracações.
Além disso, há movimentação expressiva nos cais de Capuaba (313), Comercial (236), Terminal de Vila Velha (182) e Cais de Aribiri (165).
O risco de acidentes é corroborado por registros de animais com cicatrizes, cortes e nadadeiras decepadas, observados desde 2014. Um caso emblemático ocorreu em 2024, em Guarapari, onde uma fêmea foi filmada com ferimentos compatíveis com colisão, embora tenha sobrevivido e tido um filhote.
Metodologia e Financiamento
O projeto, financiado pelo Fundo Estadual do Meio Ambiente (Fundema) com um investimento de R$ 789.170, integra a rede científica Jubarte.LAB, composta por pesquisadores e estudantes da Ufes. Além do rastreamento satelital, a operação permitirá a coleta de amostras biológicas para estudos de DNA e uso de câmeras.
Os dados obtidos serão cruzados com as rotas marítimas para fundamentar a discussão de medidas preventivas, como a alteração de trajetos de navios ou a redução de velocidade em áreas sensíveis.
Economia Azul e Turismo Sustentável
Paralelamente ao esforço de conservação, o projeto "Quero Ver Baleias", do Instituto O Canal, trabalha para integrar a preservação à economia local. Com aporte de R$ 146,7 mil da Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), a iniciativa está desenvolvendo um aplicativo, com lançamento previsto para o fim de 2026.
A ferramenta visa organizar o turismo de observação de cetáceos, conectando turistas a operadores capacitados e promovendo a educação ambiental. Atualmente, a rede conta com mais de 30 parceiros no Espírito Santo, Rio de Janeiro e sul da Bahia, aplicando os conceitos de economia azul ao transformar a biodiversidade em fonte de renda sustentável para as comunidades costeiras.