Pesquisadores criam sensores de glicose utilizando biomassa de plantas invasoras da Espanha
Pesquisadores da Universidade de Castilla-La Mancha criaram sensores de detecção de glicose a partir de biomassa de plantas invasoras. O material utiliza carbonização hidrotermal e níquel para substituir enzimas e metais nobres. A tecnologia visa o controle da diabetes e a recuperação de ecossistemas degradados
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Pesquisadores da Universidade de Castilla-La Mancha desenvolveram sensores eletroquímicos não enzimáticos para a detecção de glicose utilizando a biomassa de plantas invasoras. O estudo, realizado pelo grupo EARTH (Laboratório de Tecnologias Integradas de Recuperação Ambiental) e publicado na revista *Biomass and Bioenergy*, propõe a transformação de espécies vegetais como o carrizal, a enea e o taray em materiais carbonosos aplicados à área biomédica.
A iniciativa surge como resposta a um problema ecológico em áreas úmidas da Espanha, a exemplo das Tablas de Daimiel. Nessas regiões, a proliferação agressiva dessas plantas altera ecossistemas, elimina habitats de aves aquáticas, modifica cadeias alimentares e eleva o risco de incêndios devido ao acúmulo de biomassa seca. Até então, a remoção periódica dessa vegetação resultava em toneladas de resíduos sem valor agregado, que eram queimados ou armazenados.
A tecnologia desenvolvida visa aprimorar o controle da diabetes, doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde, afetou 830 milhões de pessoas em 2022, comparado aos 200 milhões registrados em 1990. O monitoramento rigoroso da glicose é essencial para prevenir insuficiência renal, danos neurológicos, problemas de visão e complicações cardiovasculares.
Diferente dos sistemas convencionais, que dependem de enzimas sensíveis a variações de temperatura e umidade ou de metais nobres caros e escassos, como platina e ouro, o novo sensor utiliza a técnica de carbonização hidrotermal. O processo térmico converte a biomassa vegetal em uma estrutura rica em carbono, que passa por uma ativação química para aumentar a porosidade e a condutividade, criando uma espécie de esponja microscópica.
Para finalizar a composição, a equipe — formada por Jorge Comendador, Ester López-Fernández, Carlos Caballero, José Villaseñor-Camacho e Javier Llanos, do Instituto de Tecnologia Química e Ambiental de Ciudad Real (ITQUIMA) — incorporou níquel. O metal de transição foi escolhido por ser mais barato e abundante que os metais nobres. Após aquecimento a 600 graus centígrados, o material resultante apresenta partículas de níquel incrustadas na estrutura de carbono.
Nos testes, o sensor demonstrou alta sensibilidade na detecção de baixas concentrações de glicose, mantendo a estabilidade e a capacidade de diferenciar a substância de outros interferentes.
O projeto aplica os conceitos de economia circular ao converter um resíduo ambiental em matéria-prima tecnológica. Além de reduzir o volume de descartes, a abordagem contribui para a gestão da vegetação invasora e a restauração de ecossistemas degradados. Embora o foco atual seja a glicose, os materiais carbonosos porosos dopados com metais possuem potencial de aplicação em supercondensadores, baterias, armazenamento de energia, purificação de água e outros sensores químicos.