Pesquisadores dos Estados Unidos criam a primeira célula sintética feita com componentes químicos não vivos
Pesquisadores da Universidade de Minnesota criaram a SpudCell, a primeira célula sintética composta inteiramente por elementos químicos não vivos. O protótipo possui entre 150 e 200 moléculas, genoma de 90 mil pares de bases e depende de ribossomos externos para se replicar
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Pesquisadores dos Estados Unidos desenvolveram a primeira célula sintética construída integralmente a partir de componentes químicos não vivos. O projeto, detalhado na revista *Biotic* e liderado pela bióloga sintética Kate Adamala, professora da Universidade de Minnesota, resultou na criação da SpudCell. Trata-se de um protótipo que, embora frágil, consegue se alimentar, crescer e realizar replicações limitadas, representando um avanço na biologia sintética ao propor a construção de uma estrutura peça por peça.
Diferente de células animais ou vegetais, a SpudCell assemelha-se a uma bactéria simples, mas com a distinção de possuir uma composição química rigorosamente controlada e definida, sem a complexidade molecular acumulada por milhões de anos de evolução natural. A estrutura é composta por um conjunto de 150 a 200 moléculas, volume significativamente inferior aos milhões ou bilhões de componentes presentes em células biológicas. Seu genoma conta com 90 mil pares de bases, enquanto a bactéria *E. coli*, por exemplo, possui 4,6 milhões.
O funcionamento da SpudCell é dependente de assistência externa em cada ciclo. A célula leva cerca de 12 horas para se replicar sob temperatura de 30 graus — ritmo consideravelmente mais lento que os 30 minutos de divisão da *E. coli* — e consegue se reproduzir por até cinco gerações. Uma limitação central é a incapacidade de produzir os próprios ribossomos, essenciais para a síntese de proteínas, o que obriga a célula a recebê-los da *E. coli* via alimentação.
Embora a biologia sintética já utilize a modificação de células naturais para fins como a produção de insulina, a SpudCell estabelece uma nova fronteira ao criar uma arquitetura mínima do zero, em vez de reprogramar organismos existentes. Yuval Elani, professor de tecnologias bioquímicas no Imperial College London, avalia que a construção de células a partir de componentes não vivos permite superar limitações da biologia natural e viabiliza a criação de sistemas programáveis, ainda que distantes de organismos vivos convencionais.
Quanto à segurança, os desenvolvedores afirmam que a SpudCell não oferece riscos de biosegurança, pois sua divisão depende estritamente de elementos fornecidos em ambiente controlado, como os ribossomos. No entanto, há o reconhecimento de que a evolução dessa tecnologia demandará a implementação de normas e mecanismos de segurança. O objetivo final é que a célula sintética se torne uma plataforma compartilhada para a comunidade científica, servindo como base para a investigação da origem da vida, a criação de novos tratamentos e o projeto de sistemas biológicos funcionais.