Pesquisadores encontram primeira evidência molecular de varíola transportada da Europa para as Américas no período colonial
Pesquisadores identificaram DNA de varíola em duas múmias incas no norte do Chile, evidenciando a chegada do vírus da Europa às Américas no século 16. O estudo, publicado na revista Science, analisou genomas de uma linhagem extinta presentes em um homem e em uma mulher
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Pesquisadores identificaram a primeira evidência molecular direta da varíola transportada da Europa para as Américas durante o período colonial. A descoberta foi possível após a recuperação de DNA viral antigo de duas múmias encontradas em uma comunidade inca, localizada no norte do Chile, próxima à enseada de Camarones, na costa do Pacífico.
As vítimas, cujos corpos foram preservados por mumificação natural e enterrados com cobertores de lã de camelídeos e objetos funerários, eram um homem de 18 a 20 anos e uma mulher de 30 a 35 anos. Embora a data exata da infecção não tenha sido precisada, os cientistas restringiram o período ao século 16, época em que Francisco Pizarro liderou a queda do imperador inca, na década de 1530.
Evolução e impacto do patógeno
A análise dos genomas revelou que os vírus presentes nos corpos pertenciam a uma linhagem hoje extinta. Essa cepa situa-se evolutivamente entre as variantes da Europa medieval e as que circularam em séculos posteriores. Como os genomas recuperados eram quase idênticos, a evidência sugere que ambos os indivíduos foram infectados pela mesma cepa ou durante o mesmo surto.
O estudo, publicado na revista Science, indica que o vírus passou por um longo processo de evolução genética até o século 16. No entanto, esse ritmo desacelerou durante as epidemias que acompanharam a colonização espanhola, voltando a acelerar apenas após a criação da primeira vacina, em 1796. Esse comportamento sugere que o patógeno havia atingido um patamar evolutivo ideal, permitindo sua propagação rápida em populações que não possuíam imunidade natural, sem a necessidade de novas adaptações.
Colapso populacional e social
A chegada dos europeus em 1492 introduziu doenças infecciosas que, somadas à varíola, causaram a morte de aproximadamente 90% dos povos indígenas. O primeiro surto documentado ocorreu em 1518, na ilha de Hispaniola, território que hoje compreende a República Dominicana e o Haiti.
Esse cenário de mortalidade em massa facilitou a derrota de grandes civilizações, como o Império Asteca no México, as cidades-estado maias na América Central e o Império Inca, que abrangia áreas do Chile, Peru e Equador. Além do impacto biológico, a doença gerou um trauma psicológico: a rapidez do contágio e a gravidade dos sintomas — que incluíam febres altas, desfiguração e pústulas sangrentas — levaram muitos indígenas a acreditar que suas divindades eram impotentes diante dos invasores.
Erradicação global
A varíola afetou a humanidade por um período estimado entre 1.500 e 2.000 anos, resultando na morte de centenas de milhões de pessoas globalmente. O último caso natural da doença foi registrado na Somália, em 1977. Em 1980, após uma campanha global de vacinação, a Organização Mundial da Saúde declarou a varíola como a primeira e única doença infecciosa humana erradicada em todo o mundo.