Ciência

Pesquisadores identificam o primeiro caso de câncer transmissível em peixes no lago Memphremagog

26 de Julho de 2026 às 21:07

Pesquisadores da Universidade de Vermont identificaram o primeiro caso de câncer transmissível em peixes da espécie Ameiurus nebulosus no lago Memphremagog. O estudo, publicado na revista Nature, constatou que o melanoma migra entre hospedeiros, descendendo de um único animal fundador antes de 2015

Pesquisadores identificam o primeiro caso de câncer transmissível em peixes no lago Memphremagog
Nature

Pesquisadores da Universidade de Vermont identificaram o primeiro caso de câncer transmissível registrado em peixes. O estudo, publicado nesta quarta-feira (22) na revista Nature, analisou a ocorrência de melanoma em bagres da espécie Ameiurus nebulosus que habitam o lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.

Diferente de tumores causados por agentes infecciosos, como o vírus HPV, neste fenômeno as próprias células cancerosas migram de um hospedeiro para outro. A célula tumoral transporta o DNA do animal original, comportando-se de maneira semelhante a um parasita. Até o momento, esse comportamento foi observado em apenas três grupos de animais: cães (tumor venéreo), diabos-da-tasmânia (tumor facial) e em algumas espécies de moluscos bivalves (semelhante à leucemia).

Evidências genéticas e análise de dados

A investigação teve início após a detecção de lesões pretas e elevadas na pele de 23% a 37% dos bagres entre 2014 e 2017. Inicialmente, suspeitou-se de contaminação ambiental devido a poluentes levados por uma enchente em 2011, já que a espécie é utilizada como indicador de qualidade da água. No entanto, o sequenciamento do genoma dos tumores e dos tecidos saudáveis dos mesmos animais refutou essa hipótese.

A análise comparativa de 686.296 posições do genoma revelou que 245.189 alterações estavam presentes nos tumores, mas ausentes nos tecidos saudáveis dos peixes. Dessas marcas, 59% repetiam-se exatamente na mesma posição em 14, 15 ou 16 peixes analisados. Em contrapartida, 83,4% das alterações nos tecidos sadios eram exclusivas de cada indivíduo.

Para validar a descoberta, a equipe utilizou dados do The Cancer Genome Atlas. A comparação mostrou que, em 463 melanomas humanos, 94% das mutações eram exclusivas de cada paciente, e apenas 0,008% das alterações apareciam em dez ou mais tumores. Isso comprova que os melanomas do lago Memphremagog descendem de um único animal fundador, em um evento ocorrido antes de 2015.

Impactos ecológicos e saúde pública

A geneticista molecular Julie Dragon, da Universidade de Vermont, afirmou que a doença não foi detectada em outras espécies do lago e que não há ameaças conhecidas à saúde humana. A transmissão para pessoas é descartada, inclusive por ingestão, pois as células seriam degradadas durante a digestão.

Apesar de não afetar humanos, a descoberta altera a percepção sobre a conservação de espécies. O câncer contagioso é agora classificado como a sexta modalidade de doença infecciosa, ao lado de vírus, bactérias, fungos, parasitas e príons. Para órgãos de monitoramento de fauna, a presença de tumores em animais selvagens deixa de ser apenas um sinal de poluição e passa a ser um alerta de possível transmissão.

Hipóteses de contágio e origem

Embora a varredura por vírus e bactérias não tenha encontrado microrganismos associados, a forma exata de transmissão entre os peixes ainda é desconhecida. As principais hipóteses incluem:

  • Reprodução: A doença ocorre em animais adultos, que se reúnem em aglomerações rasas para a desova, com intenso contato físico.
  • Sedimentos: Como os bagres não possuem escamas e vivem no fundo do lago, poderiam absorver células depositadas no sedimento através da pele, boca ou brânquias.

A análise genética indica que a linhagem tumoral pode ter se originado fora do lago Memphremagog. Por isso, a coleta de amostras foi expandida para corpos d'água em New Brunswick, Maine, New Hampshire e Vermont. Diferente do que ocorre com os diabos-da-tasmânia, os bagres parecem conviver com os tumores por anos, e o impacto a longo prazo na população ainda está sendo estudado.

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