Pesquisadores propõem adição de neve artificial para estabilizar a camada de gelo da Antártida Ocidental
Pesquisadores do Instituto Potsdam propuseram a adição de 7,4 trilhões de toneladas de neve na Antártida Ocidental ao longo de dez anos. A estratégia de geoengenharia visa estabilizar a camada de gelo e evitar a elevação do nível do mar em mais de 3 metros. O projeto requer a dessalinização de água oceânica e o uso de milhares de turbinas eólicas
Pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático propuseram uma estratégia de geoengenharia para tentar estabilizar a camada de gelo da Antártida Ocidental, visando conter um colapso que poderia elevar o nível do mar em mais de 3 metros. O estudo, publicado na Science Advances em 2019 por Johannes Feldmann, Anders Levermann e Matthias Mengel, sugere a adição artificial de 7,4 trilhões de toneladas de neve em áreas costeiras vulneráveis ao longo de dez anos.
A medida surge como resposta ao diagnóstico de que glaciares como o Pine Island e o Thwaites já estariam em um processo de descarga autossustentada. Diferente da Antártida Oriental, a região ocidental possui um leito rochoso abaixo do nível do mar, o que facilita a penetração de águas oceânicas quentes e acelera o derretimento. Esse fenômeno, denominado Marine Ice Sheet Instability (MISI), cria um ciclo onde o recuo do gelo expõe áreas mais profundas, intensificando a entrada de calor e a instabilidade.
O objetivo da intervenção não é congelar o continente, mas aumentar a massa e a pressão sobre o gelo em zonas críticas. Ao depositar neve artificialmente, a cobertura glacial seria empurrada contra o leito rochoso, reduzindo o fluxo de gelo em direção ao oceano e interrompendo o ciclo de retroalimentação do MISI.
Para viabilizar a operação, seria necessário um sistema logístico de escala industrial: a água do oceano seria bombeada, dessalinizada e transformada em neve para distribuição nas áreas instáveis. A magnitude do projeto exigiria a instalação de dezenas de milhares de turbinas eólicas de grande porte para suprir a demanda energética do bombeamento e da produção de neve, operando continuamente por uma década em um dos ambientes mais hostis da Terra.
Apesar de fisicamente plausível, a proposta enfrenta barreiras severas. Além dos desafios técnicos e energéticos, a implementação esbarra em tratados internacionais que limitam a intervenção humana na Antártida. Há também incertezas sobre os impactos ambientais, como a alteração de correntes oceânicas e a perturbação de ecossistemas locais.
Os autores classificam a geoengenharia como uma alternativa emergencial ou "última linha de defesa" para cenários em que a redução de emissões de gases de efeito estufa não seja suficiente. No entanto, reforçam que a ação preventiva contra as causas do aquecimento global permanece como a solução mais eficaz, dado que intervenções artificiais dessa magnitude são caras, complexas e incertas.