Pesquisadores utilizam narvais para mapear águas atlânticas em profundezas remotas da Groenlândia
Pesquisadores utilizaram sensores em seis narvais para mapear o Sound de Scoresby, na Groenlândia, coletando 2.060 perfis oceanográficos a profundidades superiores a 1.500 metros. O estudo identificou que a água atlântica, mais quente e salgada, avança até 300 quilômetros nos fiordes e atinge frontes glaciares. Os dados revelam o aumento da camada de água atlântica e a redução da camada de água polar na região
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Pesquisadores da Universidade de Copenhague, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia e outras instituições utilizaram narvais para mapear as profundezas do Sound de Scoresby, no Ártico. Através de sensores instalados em seis animais, a equipe conseguiu acessar áreas dos fiordes inacessíveis a embarcações, revelando a presença de água atlântica em regiões remotas da costa oriental da Groenlândia.
Monitoramento submarino e coleta de dados
Entre 2017 e 2020, os dispositivos fixados aos cetáceos permaneceram ativos por períodos que variaram entre 85 e 332 dias. O sistema foi programado para registrar as duas imersões mais profundas de cada dia, resultando em 2.060 perfis oceanográficos, com alguns registros ultrapassando os 1.500 metros de profundidade.
Os sensores capturaram dados de temperatura, profundidade e condutividade elétrica — parâmetro utilizado para calcular a salinidade. Essa metodologia permitiu que os cientistas acompanhassem a dinâmica oceânica sob o gelo marinho e entre icebergs, superando as limitações logísticas das campanhas oceanográficas tradicionais.
Dinâmica das massas de água e impacto nos glaciares
O estudo, publicado na revista Science Advances, identificou uma mudança na estrutura das camadas oceânicas da região. Enquanto a superfície é dominada por águas polares frias e menos salinas, provenientes do derretimento do gelo e do Ártico, as profundezas abrigam águas atlânticas, que são mais quentes e salgadas.
As medições comprovam que essa massa de água atlântica avança centenas de quilômetros para o interior do sistema de fiordes, chegando a 300 quilômetros da costa. Ao cruzar as barreiras submarinas na entrada dos fiordes, essa água quente atinge diretamente os frontes glaciares, acelerando a perda de gelo.
Modelagem climática e previsões
Para validar as descobertas, os pesquisadores integraram os dados dos narvais a registros históricos do banco de dados mundial do oceano. A análise revelou que a camada de água atlântica tornou-se mais espessa, enquanto a camada superior de água polar diminuiu.
Essa descoberta é fundamental para a precisão dos modelos de evolução do clima, já que o derretimento dos glaciares da Groenlândia libera volumes massivos de água doce, alterando as condições físicas das massas marinhas. A compreensão detalhada desse mecanismo, agora possível graças aos dados coletados pelos animais, permite uma visão mais completa do oceano e do ritmo de degelo no Ártico.