Ciência

Professor de Cambridge recebe Prêmio Kavli por identificar evidências de fusões na Via Láctea

14 de Junho de 2026 às 06:06

O professor de Astronomia da Universidade de Cambridge, Vasily Belokurov, venceu o Prêmio Kavli de Astrofísica de 2026. A honraria reconhece a identificação de evidências de fusões galácticas que explicam a evolução da Via Láctea

Professor de Cambridge recebe Prêmio Kavli por identificar evidências de fusões na Via Láctea
Jefferson Renee Benatti Mazzoni/Arquivo pessoal

Vasily Belokurov, professor de Astronomia da Universidade de Cambridge, recebeu o Prêmio Kavli de Astrofísica de 2026 por identificar evidências fósseis de fusões galácticas que explicam a evolução da Via Láctea. Através de um processo de arqueologia galáctica, o pesquisador utiliza as leis da dinâmica e da evolução estelar para analisar a órbita e a composição química de centenas de milhões de estrelas, buscando as mais antigas e peculiares para reconstruir a história do sistema.

A descoberta central baseia-se na identificação de estrelas migrantes, que não nasceram na Via Láctea. Diferente das estrelas nativas, que orbitam o centro galáctico em um fluxo rotativo regular, as migrantes apresentam trajetórias irregulares, cruzando órbitas locais e mergulhando em regiões internas antes de retornarem à periferia. Essas estrelas possuem uma química distinta, com menor concentração de elementos pesados, característica típica de galáxias anãs com evolução mais lenta.

Esses dados confirmam a teoria do crescimento hierárquico cósmico, na qual galáxias maiores expandem-se ao absorver e despedaçar sistemas menores. O exemplo mais expressivo na Via Láctea é a estrutura Gaia-Sausage-Enceladus, remanescente de uma galáxia que colidiu com a nossa entre 8 e 11 bilhões de anos atrás. O impacto foi profundo: estrelas do disco original foram exiladas para o halo galáctico, novos aglomerados estelares foram incorporados e a orientação do disco da Via Láctea, bem como seu alinhamento com o halo de matéria escura, foi alterada.

O estudo da Via Láctea é fundamental para a compreensão da matéria escura, substância invisível que mantém as galáxias unidas. Por ser a única galáxia onde os movimentos estelares podem ser medidos com precisão extrema, ela permite a criação de um mapa detalhado da densidade, forma e extensão dessa matéria, especialmente em seu vasto halo, que pode ser deformado por grandes encontros cósmicos.

Essa precisão analítica foi viabilizada por revoluções em dados abertos. O Sloan Digital Sky Survey (SDSS), desde 2000, e o telescópio espacial europeu Gaia, desde 2014 — que mapeou quase 2 bilhões de estrelas —, transformaram a galáxia em um registro arqueológico acessível.

Embora a Via Láctea tenha passado por um período de estabilidade após a fusão com a Gaia-Sausage-Enceladus, o sistema enfrenta agora uma nova perturbação. A Grande Nuvem de Magalhães (LMC), a companheira mais massiva da galáxia, exerce uma força gravitacional que está distorcendo o halo e puxando a Via Láctea em direção a uma colisão inevitável, iniciando um novo ciclo de adaptação e sobrevivência cósmica.

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