Proposta de barragem no Estreito de Bering visa estabilizar sistema de correntes oceânicas do Atlântico
Estudo da Universidade de Utrecht propõe a construção de uma barragem no Estreito de Bering para estabilizar a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico. A obra visaria controlar a salinidade oceânica, mas requer que o sistema mantenha fluxo superior a 16,4 milhões de metros cúbicos por segundo. O projeto enfrenta custos trilionários, impasses diplomáticos entre Rússia e Alasca e impactos em rotas migratórias marinhas
A construção de uma barragem no Estreito de Bering, passagem de 82 quilômetros que separa a Rússia do Alasca, surge como uma proposta de engenharia para evitar o colapso da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). De acordo com um estudo da Universidade de Utrecht, publicado na revista Science Advances, a obra visaria estabilizar esse sistema oceânico, responsável pela regulação do nível do mar e das temperaturas globais, que está ameaçado pelo excesso de água doce proveniente do degelo polar.
A estratégia baseia-se no controle da salinidade. Atualmente, o Estreito de Bering permite que águas do Pacífico, com menor concentração de sal, cheguem ao Oceano Ártico e, posteriormente, migrem para o Atlântico Norte. O bloqueio dessa passagem interromperia esse fluxo. No entanto, a eficácia da medida depende de um limite matemático rigoroso: a intervenção só teria efeito positivo se iniciada enquanto a AMOC ainda mantém sua integridade. Caso o sistema enfraqueça mais de 16%, atingindo um fluxo inferior a 16,4 milhões de metros cúbicos por segundo, a barragem poderia agravar a crise. Nesse cenário, a estrutura aumentaria a formação de gelo no Ártico e reduziria a evaporação, tornando as águas mais doces e acelerando a interrupção definitiva da corrente.
A viabilidade do projeto enfrenta barreiras físicas, diplomáticas e ambientais. A obra exigiria investimentos trilionários e anos de execução em águas remotas e hostis, com profundidade média de 50 metros. Geopoliticamente, a construção demandaria um acordo internacional inédito, dado que grande parte do estreito pertence à Rússia, o que tornaria complexo o controle de uma estrutura capaz de alterar o clima global. No campo ecológico, a barreira física comprometeria ecossistemas do Pacífico e do Ártico ao interromper rotas migratórias de baleias e outros animais marinhos.
Mesmo se concretizada, a barragem não eliminaria as causas do problema. O aquecimento global continuaria a derreter as geleiras da Groenlândia, injetando água doce no sistema e ameaçando a AMOC por outras vias. A consideração de medidas extremas, como a criação de muros oceânicos, reflete a urgência da crise climática diante da lentidão na redução das emissões de gases estufa.