Proteína desenvolvida pela UFRJ é testada para regenerar nervos lesionados na medula espinhal
A polilaminina, proteína desenvolvida pela UFRJ e patenteada pela Cristália, passa por testes para regenerar nervos da medula espinhal. Resultados em cães e humanos indicam recuperação motora, mas entidades científicas solicitam estudos controlados para validar a eficácia. O tratamento possui 84 autorizações de uso compassivo e está sob análise da Anvisa
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A polilaminina, proteína derivada da placenta e recriada em laboratório pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há mais de duas décadas, está sob análise para verificar sua capacidade de regenerar nervos lesionados na medula espinhal. O composto atua como uma versão da laminina, proteína do desenvolvimento embrionário que auxilia na conexão entre neurônios, com o objetivo de estimular a criação de novas rotas nervosas e a recuperação de movimentos.
A tecnologia, cuja patente foi adquirida pela farmacêutica Cristália, que investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento, já apresentou resultados em modelos animais. Um estudo publicado na revista *Frontiers in Veterinary Science* em agosto detalhou a aplicação da substância em seis cães paraplégicos. Quatro deles recuperaram a capacidade de dar passos e melhoraram a firmeza da marcha, enquanto dois apresentaram avanços discretos. Não houve registro de efeitos colaterais graves.
Em humanos, os testes iniciais envolveram oito pacientes com lesões medulares completas. Seis sobreviventes recuperaram algum nível de controle motor abaixo da área lesionada, com destaque para o caso de Bruno Drummond de Freitas, que voltou a caminhar sem auxílio após dois anos. Contudo, a comunidade científica, representada por entidades como a Academia Brasileira de Neurologia e a Fundação Christopher & Dana Reeve, recomenda cautela. O argumento é que recuperações espontâneas podem ocorrer em lesões cervicais, tornando indispensáveis estudos controlados e revisados por pares para validar a eficácia e a segurança do tratamento.
Atualmente, a polilaminina passa por testes para comprovar sua viabilidade clínica. A cientista Tatiana Sampaio informou que um estudo revisado por pares está próximo de ser publicado, embora não tenha detalhado a data ou o periódico. Anteriormente, versões do trabalho foram recusadas por revistas como *Nature Communications* e *Journal of Neurosurgery* devido a divergências na taxa de recuperação de pacientes e à falta de registro do ensaio em bancos internacionais de pesquisa.
Sampaio trabalha na correção de pontos críticos do estudo preliminar (*preprint*), como um erro de digitação em gráfico que atribuía dados de um paciente a outro e a falhas na programação de imagens de eletromiografia. Outro ponto de debate técnico refere-se ao "choque medular" — fase temporária pós-trauma que pode mascarar a gravidade da lesão. A pesquisadora afirmou que nenhum paciente estava nesse estado, justificando a não utilização do protocolo padrão-ouro de observação prolongada, pois a proteína deve ser aplicada em até 72 horas após o acidente. Especialistas em pesquisa clínica ainda questionam a ausência de informações sobre quantos participantes foram avaliados e descartados do estudo, o que poderia gerar vieses nos resultados.
Apesar do estágio experimental, a demanda pública pelo tratamento cresceu, levando dezenas de pessoas a buscarem a via judicial ou administrativa para acessar o medicamento. Até o momento, 84 pacientes receberam autorização para uso compassivo: 44 por decisões judiciais e 40 por vias administrativas.
O governo federal monitora o progresso da pesquisa. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, informou que a polilaminina foi o primeiro produto analisado pelo Comitê de Inovação da Anvisa. A expectativa do governo é que, caso os estudos clínicos confirmem a eficácia, o tratamento seja disponibilizado à população com agilidade.