Ciência

Realismo ingênuo explica por que pessoas com as mesmas informações chegam a conclusões opostas

01 de Novembro de 2026 às 07:39 4 min de leitura

O conceito de realismo ingênuo, desenvolvido por Lee Ross, descreve a tendência humana de considerar a própria percepção como a única objetiva. O fenômeno é intensificado em contextos eleitorais e por redes sociais, transformando divergências políticas em julgamentos morais e conflitos interpessoais

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Realismo ingênuo explica por que pessoas com as mesmas informações chegam a conclusões opostas
Reprodução/TV Globo

O fenômeno psicológico conhecido como realismo ingênuo explica por que indivíduos expostos às mesmas informações, como debates e notícias eleitorais, podem chegar a conclusões opostas e acreditar que sua percepção é a única objetiva. Desenvolvido a partir da década de 1990 pelo psicólogo americano Lee Ross, o conceito descreve a tendência humana de presumir que pessoas racionais e bem informadas concordariam com suas próprias conclusões, atribuindo a discordância alheia à desinformação, manipulação ou incapacidade de raciocínio.

A influência do emocional na percepção

A formação de convicções não ocorre apenas por meio da lógica. Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), pontua que a interpretação dos fatos é moldada por histórias pessoais, expectativas e desejos. Existe uma satisfação emocional em validar ideias já conhecidas, o que torna a mudança de opinião difícil, mesmo diante de novos argumentos.

Na perspectiva da psicanálise, as fantasias inconscientes atuam na interpretação da realidade. Assim, a defesa de um ponto de vista muitas vezes não é apenas a proteção de uma verdade, mas a preservação de uma visão de mundo que oferece segurança emocional. Quando essa visão é questionada, a reação pode ser intensa, pois a discordância é percebida como uma ameaça aos desejos do indivíduo para a sociedade.

Polarização política e julgamento moral

No contexto de eleições, esse mecanismo se intensifica, pois a escolha política reflete valores pessoais e a sociedade idealizada por cada cidadão. Quando a identificação com uma posição política se torna excessiva, a divergência deixa de ser um debate sobre projetos de governo e passa a ser vista como um ataque à identidade do indivíduo.

Essa transição transforma a diferença política em julgamento moral. Em vez de compreender a trajetória do outro, tende-se a atribuir características negativas ao interlocutor, como ignorância ou falta de valores. Dunker associa essa reação à dificuldade de admitir as próprias contradições; ao não reconhecer a própria complexidade, a pessoa projeta no outro a incapacidade de mudar de opinião, interpretando a diferença como um defeito de caráter.

Evidências científicas e conflitos interpessoais

A relação entre a percepção de objetividade e a hostilidade foi documentada em um estudo de 2020 publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A pesquisa, que contou com a participação de Lee Ross, analisou eleitores de Donald Trump e Hillary Clinton na campanha de 2016. Os dados mostraram que apoiadores de ambos os lados consideravam seu próprio grupo guiado por fatos, enquanto atribuíam as posições dos adversários a vieses e propaganda.

Esse cenário reflete-se em rupturas familiares entre pais, filhos e amigos. Segundo Dunker, as disputas eleitorais frequentemente servem como canal para expressar ressentimentos e conflitos de autoridade ou autonomia que já existiam previamente, mas não eram discutidos. O confronto do debate público é, então, transportado para as relações privadas, transformando a política em disputa pessoal.

O papel das redes sociais e a superação do viés

As plataformas digitais agravam o fenômeno ao expor opiniões a públicos amplos sem os elementos da comunicação presencial, como tom de voz e expressões faciais. Isso facilita interpretações equivocadas, especialmente em aplicativos como o WhatsApp, onde o estado emocional do receptor altera o sentido da mensagem. Além disso, o modelo econômico das redes sociais privilegia conteúdos que geram indignação e hostilidade para aumentar o engajamento.

O reconhecimento do realismo ingênuo exige questionar as próprias certezas. De acordo com Dunker, ninguém está imune a esse processo, especialmente em momentos de pressão emocional, angústia ou ressentimento, situações que levam a pessoa a buscar explicações simplistas que confirmem suas crenças.

A superação desse viés não implica em abandonar convicções ou aceitar informações falsas, mas em admitir que a certeza individual não é garantia de verdade absoluta e que a percepção do outro é influenciada por experiências e desejos distintos.

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