Robô submarino revela que a Geleira Thwaites derrete de maneira irregular na Antártida
O robô submarino Icefin detectou que o derretimento da base da Geleira Thwaites ocorre de forma irregular, com erosão acelerada em fendas e paredes. Dados publicados na revista Nature indicam que a zona de aterramento recuou 14 km desde o fim da década de 1990

A exploração da Geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, revelou que o derretimento de sua base ocorre de maneira irregular, com pontos de erosão acelerada em fendas e paredes inclinadas, contrariando modelos que previam um desgaste uniforme. A descoberta foi possível graças ao Icefin, um robô submarino de 3,5 metros de comprimento e 23 centímetros de diâmetro, capaz de operar a até 1 km de profundidade. O veículo, que pesa 130 kg, foi inserido em uma cavidade oceânica através de um furo de aproximadamente 600 metros, aberto com água quente.
Equipado como um laboratório móvel, o Icefin carrega câmeras de alta definição, sonar, altímetro e sensores de pH, turbidez, oxigênio dissolvido, salinidade e temperatura, além de instrumentos para medir correntes e mapear o fundo do mar em três dimensões. A operação, parte do projeto MELT — uma colaboração científica entre Reino Unido e Estados Unidos —, posicionou o robô a cerca de 1,5 a 2 km da linha de aterramento, região onde o gelo deixa de tocar o fundo marinho e começa a flutuar. Este ponto é determinante para a estabilidade da geleira e para a velocidade com que o gelo continental avança rumo ao oceano.
Os dados, publicados em dois artigos na revista Nature em fevereiro de 2023, indicam que a base da Thwaites não derrete de forma homogênea. Em áreas planas, a presença de uma camada de água mais fresca reduz a mistura vertical de calor, limitando a taxa de derretimento. No entanto, estruturas em degraus e rachaduras concentram a ação da água quente, intensificando o desgaste do gelo. O British Antarctic Survey observou que, ao longo de nove meses, a água próxima à linha de aterramento tornou-se mais quente e salgada, mas a média de derretimento basal ficou entre 2 e 5 metros por ano.
Apesar de essa média ser inferior às previsões de alguns modelos, a International Thwaites Glacier Collaboration (ITGC) alerta que esse número mascara a gravidade da situação. As irregularidades na base funcionam como pontos fracos: a água quente amplia as fendas e altera a geometria da plataforma, enfraquecendo a estrutura que retém o gelo continental. Esse processo explica por que a geleira continua a recuar, com sua zona de aterramento retrocedendo 14 km desde o final da década de 1990.
A vulnerabilidade da Thwaites é acentuada pelo fato de grande parte de sua massa estar apoiada abaixo do nível do mar, sobre um leito que se aprofunda em direção ao interior do continente, o que facilita o recuo acelerado quando a água oceânica atinge a base. O colapso total da geleira, em um horizonte de séculos, elevaria o nível médio global do mar em cerca de 65 centímetros. Caso ocorra uma desestabilização mais ampla dos glaciares do setor do Mar de Amundsen, esse aumento poderia chegar a vários metros em escalas temporais mais longas.
A missão do Icefin preencheu uma lacuna de observação que satélites, navios e mergulhadores não conseguiam suprir, já que essas ferramentas não visualizam o teto submerso das plataformas de gelo. Para Peter Washam, pesquisador da equipe, a capacidade do robô de coletar dados em locais anteriormente inacessíveis exige que a ciência repense a complexidade da interação entre o oceano e o gelo na Antártida.