Sapos-cururus explodem em número de 200 milhões na Austrália, ameaçando biodiversidade única do país
O governo da Austrália reconheceu em 2010 a gravidade do desastre ambiental causado pelos sapos-cururus americanos, introduzidos no país em 1935. A população desses animais chegou a mais de 200 milhões e está espalhada por cerca de 40 mil quilômetros quadrados. O impacto principal é o veneno produzido pelo sapo, que causou quedas populacionais entre 50% e 90% em outros predadores importantes do ecossistema
A Austrália, conhecida por sua biodiversidade única, enfrenta um dos maiores desastres ambientais da história moderna. Em 1935, o entomologista Reginald Mungomery introduziu no país os sapos-cururus americanos como solução para controlar a infestação de besouros-da-cana nas plantações de cana-de-açúcar. No entanto, essa iniciativa mal planejada acabou por desencadear uma catástrofe ecológica sem precedentes.
Os sapos-cururus foram inicialmente colocados em um cercado experimental na região de Gordonvale, no norte do estado australiano de Queensland. Em poucas semanas, os animais começaram a se reproduzir rapidamente, liberando mais de 2 milhões de indivíduos nos canaviais próximos à cidade de Cairns.
A população dos sapos-cururus explodiu em todo o norte da Austrália e hoje é estimada em mais de 200 milhões. Além disso, a espécie se espalhou por milhares de quilômetros quadrados ao longo das décadas, avançando cerca de 40 a 60 quilômetros por ano rumo ao oeste.
O principal impacto ecológico do sapo-cururu não está na competição por alimento, mas no seu poderoso veneno. O animal produz uma substância tóxica chamada bufotoxina, secretada pelas glândulas parotoides localizadas atrás da cabeça.
O quoll-do-norte, um marsupial carnívoro semelhante a um pequeno gato selvagem, perdeu mais de 90% de sua população em regiões invadidas pelos sapos-cururus. Lagartos varanídeos, cobras nativas e monitores-de-manchas-amarelas também registraram quedas populacionais entre 50% e 90%.
A morte desses predadores importantes provocou efeitos em cadeia nos ecossistemas. A remoção de um predador altera todo o equilíblio ecológico de um ambiente, gerando uma cascata trófica.
Em 2010, o governo australiano reconheceu oficialmente a gravidade da situação e autoridades ambientais declararam que é improvável que um método de controle em larga escala para os sapos-cururus esteja disponível no futuro próximo. Diversas estratégias foram testadas ao longo das últimas décadas, incluindo aversão condicionada.
A prioridade dos cientistas não é mais erradicar a espécie — algo considerado praticamente impossível— mas desenvolver estratégias que permitam à fauna nativa sobreviver à presença permanente de um invasor.