Startup desenvolve tecnologia para manter cérebros humanos ativos para testar medicamentos contra doenças neurodegenerativas
A startup norte-americana Bexorg criou a tecnologia BrainEx para manter cérebros humanos biologicamente ativos após a morte para testar fármacos contra doenças neurodegenerativas. O sistema circula solução artificial pelo órgão, método já aplicado em mais de 700 cérebros para observar reações celulares em tempo real

A startup norte-americana Bexorg, sediada em Connecticut, desenvolveu a tecnologia BrainEx para manter cérebros humanos biologicamente ativos após a morte, visando a testagem de fármacos experimentais contra doenças neurodegenerativas. O sistema opera por meio de uma máquina que circula uma solução artificial pelos vasos sanguíneos do órgão, suprindo tecidos cerebrais com nutrientes e oxigênio para preservar atividades metabólicas e moleculares por um período determinado.
O método permite que pesquisadores observem, em tempo real, a reação de proteínas, células e estruturas cerebrais a novos tratamentos. A empresa já realizou esse procedimento em mais de 700 cérebros. O ciclo de testes dura cerca de 24 horas, momento após o qual o órgão é fragmentado em centenas de partes para análises detalhadas. Essa etapa final serve para verificar a precisão do alvo da substância, seu tempo de atividade e a ocorrência de efeitos colaterais.
A aplicação dessa técnica busca superar as limitações dos testes em modelos animais, como ratos e porcos, que não reproduzem fielmente a complexidade do cérebro humano. Ao utilizar tecidos reais, a ciência consegue analisar reações em órgãos que carregam o histórico de envelhecimento natural, exposição ambiental e uso prévio de medicamentos, fatores essenciais para o estudo de patologias que afetam idosos, como as doenças de Alzheimer e Parkinson.
A eficácia do modelo já apresenta reflexos práticos na indústria farmacêutica. A Biohaven prepara um ensaio clínico para um medicamento focado na perda de energia celular em cérebros com doenças neurodegenerativas, utilizando dados obtidos via plataforma da Bexorg. Outro exemplo ocorreu com um tratamento para Parkinson que, apesar de não ter funcionado em ratos, demonstrou resposta em cérebros humanos isolados com uma dosagem inferior à prevista inicialmente.
Diante da possibilidade de reações biológicas, surge o debate sobre a eventual recuperação da consciência. A Bexorg nega essa hipótese, afirmando que os órgãos não possuem atividade elétrica coordenada para processar memórias, pensamentos ou dor. Para mitigar riscos, o fluido utilizado no processo contém propofol, anestésico que suprime a atividade elétrica cerebral.
Apesar do argumento de que a técnica é mais ética e eficiente que a experimentação animal — podendo reduzir custos e evitar anos de pesquisas infrutíferas —, especialistas em bioética alertam para a abertura de um território desconhecido. O impasse reside na fronteira moral caso um cérebro isolado atinja qualquer nível de percepção, enquanto a empresa mantém que os órgãos permanecem ativos apenas para responder a drogas, sem estarem "vivos" no sentido humano.