Ciência

Telescópio detecta anéis concêntricos na atmosfera de Vênus por meio de luz polarizada

29 de Julho de 2026 às 18:09

Análise de luz polarizada feita pelo telescópio William Herschel identificou anéis concêntricos na atmosfera de Vênus. O estudo, publicado na The Planetary Science Journal, indica que a estrutura resulta de variações de densidade gasosa

Telescópio detecta anéis concêntricos na atmosfera de Vênus por meio de luz polarizada
Mahapatra et al., Planet. Sci. J., 2026

A análise da luz polarizada de Vênus, realizada por meio do telescópio William Herschel, em Tenerife, revelou a presença de anéis concêntricos em sua atmosfera. A estrutura, invisível para câmeras astronômicas convencionais, foi detalhada em um estudo publicado na revista The Planetary Science Journal e sugere uma nova metodologia para compreender a dinâmica atmosférica do planeta.

O registro da anomalia

A detecção ocorreu de forma fortuita em 2010, durante uma janela de observação de 36 minutos. O astrofísico Michiel Rodenhuis, após consultar Daphne Stam, do Observatório de Leiden, utilizou o Extreme Polarimeter (ExPo), um instrumento experimental instalado no telescópio.

Diferente de equipamentos tradicionais, o ExPo registra a luz polarizada linearmente e reduz a radiação não polarizada. Como a polarização ocorre quando a luz se dispersa entre partículas e gases, a técnica permite visualizar detalhes sutis da atmosfera que normalmente permanecem ocultos.

A anomalia foi identificada apenas meses após a desmontagem do dispositivo. Ao revisar os dados, a equipe encontrou grandes círculos que abrangiam boa parte do hemisfério diurno de Vênus, concentrados na região de maior brilho. Devido à geometria do sinal, a suspeita inicial era de que se tratasse de um erro eletrônico ou falha no detector.

Simulações e a natureza dos anéis

Durante anos, pesquisadores tentaram classificar os anéis como um artefato instrumental, mas os testes não eliminaram o sinal. A investigação avançou quando dados da sonda japonesa Akatsuki indicaram que a atmosfera venusiana comporta ondas de escala planetária.

Para validar a descoberta, o físico atmosférico Gourav Mahapatra, da Universidade Técnica de Delft, desenvolveu simulações computacionais. Os modelos demonstraram que variações de densidade entre 5% e 10% nas camadas superiores da atmosfera seriam capazes de gerar padrões de polarização idênticos aos registrados em Tenerife.

Esses círculos não são as ondas em si, mas a impressão óptica resultante da compressão e expansão do gás atmosférico. Tais perturbações podem percorrer milhares de quilômetros, movendo energia e movimento entre diferentes altitudes.

Impacto no estudo da superrotação

A compreensão desses padrões pode ser fundamental para investigar a superrotação de Vênus. Esse fenômeno faz com que as nuvens do planeta completem uma volta completa em aproximadamente quatro dias terrestres, enquanto a superfície leva 243 dias para realizar a mesma rotação.

Embora a medição original seja irrepetível, pois o instrumento ExPo não existe mais, a equipe acredita que polarímetros modernos em telescópios terrestres podem localizar a estrutura. A detecção futura desses anéis permitiria analisar a atmosfera de Vênus sob uma perspectiva inédita.

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