Telescópios Gemini North e James Webb revelam detalhes inéditos sobre a nebulosa Bola de Cristal
Dados dos telescópios Gemini North e James Webb detalharam a dinâmica da nebulosa NGC 1514, na constelação de Touro. A estrutura é formada por um sistema binário com órbita de nove anos que molda o gás expelido por uma estrela em fase final de vida. Observações em luz visível e infravermelho revelaram a composição estelar e a presença de dois anéis de poeira

A nebulosa NGC 1514, conhecida como Bola de Cristal, revelou detalhes inéditos sobre sua dinâmica estelar e formação através da combinação de dados do telescópio Gemini North e do James Webb. Localizada na constelação de Touro, próxima à fronteira com Perseu, a estrutura é o resultado da ejeção das camadas externas de uma estrela de massa intermediária em fase final de vida, processo que dura entre 10 mil e 20 mil anos antes que o gás se disperse pelo espaço interestelar para fertilizar novas estrelas.
O centro da nebulosa abriga um sistema binário composto por uma estrela de tipo O, sub-luminosa e de alta temperatura superficial, e uma gigante A0III, responsável pela maior parte da energia que ilumina a região. Ambas orbitam entre si em um ciclo de nove anos, o período binário mais lento já registrado em uma nebulosa planetária, contrastando com a maioria dos sistemas semelhantes, cujas órbitas levam horas, dias ou semanas. Essa interação específica esculpe a forma irregular da NGC 1514, pois os ventos estelares assimétricos de cada estrela comprimem o gás expelido em camadas que se assemelham a flocos de algodão luminoso.
A compreensão da estrutura interna da nebulosa, descoberta em 13 de novembro de 1790 por William Herschel — que inicialmente a identificou apenas como uma pequena mancha luminosa através de um telescópio caseiro na Inglaterra —, levou mais de dois séculos para ser detalhada. Atualmente, a análise conjunta de diferentes espectros permite reconstruir a história da morte da estrela central. Enquanto o Gemini North, situado a 4.205 metros de altitude no topo do Maunakea, no Havaí, captou a imagem em luz visível, o James Webb realizou observações no infravermelho. Estas últimas revelaram dois anéis de poeira invisíveis ao olho humano, originados de um episódio anterior de perda de massa e posteriormente moldados pelos ventos estelares.
A luz registrada pelo Gemini North, que possui um espelho principal de 8,1 metros e opera no hemisfério norte há mais de duas décadas, viajou por 1.500 anos até chegar ao observatório. Esse intervalo temporal remete ao ano 526 depois de Cristo, período coincidente com a fundação do Sacro Império Romano por Carlos Magno e o início da Idade Média na Europa. A Bola de Cristal continuará em expansão pelos próximos milênios até que, em algumas dezenas de milhares de anos, o gás se dilua completamente e a região retorne à escuridão.