Terapia genética com dose única reduz níveis de colesterol e triglicerídeos em estudo clínico
Uma terapia genética baseada na tecnologia CRISPR desativou o gene ANGPTL3 em 15 pacientes para controlar o colesterol alto. A dose única reduziu em cerca de 50% os níveis de LDL e triglicerídeos, mantendo os resultados por um ano. O estudo foi publicado no *New England Journal of Medicine
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Uma nova abordagem de terapia genética demonstrou a capacidade de controlar o colesterol alto por meio de uma aplicação única, eliminando a necessidade de medicações contínuas. O estudo, publicado no New England Journal of Medicine e apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, utilizou a tecnologia CRISPR para desativar um gene específico responsável pelo acúmulo de gorduras no organismo.
A técnica atua como uma "tesoura molecular" que corta um trecho do DNA no gene ANGPTL3, localizado nas células do fígado. Em funcionamento normal, esse gene produz uma enzima que dificulta a eliminação do LDL (colesterol ruim) e dos triglicerídeos da corrente sanguínea. Ao desativar essa produção, o corpo consegue metabolizar as gorduras com maior eficiência.
Mecanismo e resultados clínicos
A base para o desenvolvimento do tratamento veio da observação de uma população na Itália que possuía, naturalmente, uma mutação que tornava o gene ANGPTL3 defeituoso. Essas pessoas apresentavam baixos índices de colesterol e triglicerídeos durante toda a vida, além de menor incidência de doenças cardíacas.
No teste clínico com 15 pacientes, os resultados preliminares indicaram que:
- A dose mais alta do tratamento reduziu em quase 80% a enzima produzida pelo gene alvo;
- Os níveis de triglicerídeos e de LDL caíram cerca de 50%;
- O controle dos índices foi mantido por pelo menos um ano após a dose única.
A persistência do efeito clínico sugere que a edição genética atingiu células hepáticas suficientes e que estas, ao se multiplicarem, transmitiram a alteração para as novas gerações de células, impedindo a regressão do quadro.
Impacto na saúde pública e perspectivas
O controle do colesterol é crítico, pois o acúmulo de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos forma placas que podem obstruir a circulação, resultando em AVC ou infarto. No Brasil, essas condições são a principal causa de morte, somando mais de 300 mil óbitos anuais, enquanto o colesterol alto afeta 40% da população.
Atualmente, o padrão de tratamento envolve o uso vitalício de estatinas. A possibilidade de uma dose única é vista como uma solução para pacientes com baixa adesão a remédios orais ou para casos de hipercolesterolemia familiar, em que há alterações no receptor de LDL que dificultam a resposta aos tratamentos convencionais.
Próximas etapas e desafios
Embora a terapia genética tenha sido aplicada majoritariamente em doenças raras até então, este estudo sinaliza a expansão da técnica para patologias comuns. A pesquisa encontra-se em fase de análise de segurança, mas já existe um novo grupo de pacientes em acompanhamento.
Os próximos resultados devem ser divulgados até o final deste ano, etapa necessária para que os pesquisadores iniciem as tratativas com órgãos reguladores para a fase 3 do estudo. Apesar do avanço técnico, a viabilização do tratamento enfrenta barreiras relacionadas ao longo processo de aprovação regulatória e ao alto custo estimado da terapia, o que pode limitar o acesso inicial da população.