Transplante de bactérias intestinais pode ser eficaz no tratamento de alergia grave a amendoim
Estudo na revista Science Translational Medicine indica que o transplante de bactérias intestinais auxiliou seis de 15 pacientes a tolerarem amendoim. A técnica utilizou a microbiota de doadores saudáveis via cápsulas, identificando a bactéria Bacteroides ovatus como agente da redução da reatividade imunológica
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Um estudo publicado nesta quarta-feira (5) na revista Science Translational Medicine demonstrou que o transplante de bactérias intestinais pode ser eficaz no tratamento de pessoas com alergia grave a amendoim. A pesquisa revelou que seis dos 15 participantes passaram a tolerar a oleaginosa após o procedimento, que consiste na transferência de bactérias provenientes de fezes de doadores saudáveis.
Antes da intervenção, todos os voluntários apresentavam alta sensibilidade, reagindo a quantidades mínimas de proteína do amendoim — menos de 100 miligramas, o que equivale a menos de meio grão. Quatro meses após o transplante, a tolerância aumentou significativamente para parte do grupo: um paciente passou a tolerar 300 miligramas, enquanto outros cinco conseguiram ingerir 600 miligramas ou mais, volume correspondente a cerca de dois amendoins e meio.
Mecanismo e aplicação do tratamento
A base do estudo reside na relação entre a diversidade de bactérias no intestino e a modulação do sistema imunológico. Testes prévios em camundongos já haviam indicado que a presença de diversas espécies bacterianas ajudava a controlar alergias alimentares.
No ensaio clínico com humanos, os participantes ingeriram comprimidos sem sabor ou odor, contendo a microbiota de voluntários sem alergias. A maioria consumiu 36 cápsulas em um único dia, e cinco deles utilizaram antibióticos por quatro dias antes do processo. Não foram registrados efeitos colaterais graves.
Testes laboratoriais e a bactéria Bacteroides ovatus
Para aprofundar a compreensão do fenômeno, a equipe realizou testes cruzados com camundongos, transplantando as bactérias dos participantes humanos para os animais e testando a reação à proteína do ovo. Os resultados mostraram que:
- Bactérias de humanos que responderam bem ao tratamento protegeram os camundongos contra a alergia ao ovo.
- Bactérias de participantes que permaneceram sensíveis ao amendoim resultaram em animais que desenvolveram a alergia ao ovo.
Essa descoberta sugere que o tratamento pode ser expandido para outros tipos de alergias alimentares. O imunologista Talal Chatila, da Harvard Medical School, destacou a identificação da espécie Bacteroides ovatus como a bactéria responsável por tornar o sistema imunológico menos reativo.
Perspectivas e próximas etapas
Atualmente, a única alternativa para pacientes com esse quadro é a abstinência total do alimento e o porte de adrenalina injetável para emergências. Embora os resultados sejam clinicamente relevantes devido à durabilidade do efeito, a técnica ainda não está disponível para uso em consultórios.
Um segundo ensaio clínico, com grupo maior, está em fase de recrutamento. Esta nova etapa testará uma dose do coquetel bacteriano cerca de 12 vezes superior, distribuída ao longo de um mês, visando identificar quais pacientes se beneficiam mais do tratamento e quais outras bactérias possuem efeito positivo.