Ciência

Treinamento de força pode reverter envelhecimento do sistema imune causado por tratamentos oncológicos

11 de Julho de 2026 às 06:04

Estudo das universidades de Minnesota e Oregon, publicado na revista Cancers, indica que treinos de força personalizados podem reverter o envelhecimento do sistema imune em sobreviventes de câncer. A pesquisa com 16 participantes demonstrou a redução de inflamações crônicas e a restauração de funções moleculares da imunidade após dez semanas de atividade

Treinamento de força pode reverter envelhecimento do sistema imune causado por tratamentos oncológicos
Arquivo Pessoal

Um estudo publicado em 2026 na revista científica *Cancers* indica que o treinamento de força pode reverter parte do envelhecimento do sistema de defesa do organismo provocado por tratamentos oncológicos agressivos. A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Minnesota e da Oregon Health & Science University, nos Estados Unidos, sugere que a atividade física não apenas recupera a massa muscular, mas atua na restauração de funções moleculares da imunidade.

O trabalho acompanhou oito sobreviventes de câncer — a maioria submetida a transplantes de medula óssea e uma paciente com câncer de mama — e oito cuidadores saudáveis, geralmente familiares, que serviram como grupo de controle. Durante dez semanas, ambos os grupos realizaram cerca de 25 sessões médias de treinos de força personalizados e supervisionados.

Antes da intervenção, os sobreviventes apresentavam um quadro de imunossenescência, caracterizado por um corpo inflamado e defesas desgastadas. As análises de sangue e fezes revelaram a presença de inflamação crônica, evidenciada pela ativação persistente da via do interferon, proteína que deveria atuar apenas em rajadas curtas para conter infecções. Além disso, havia uma escassez de linfócitos T "virgens" — células de defesa recém-formadas, típicas de organismos jovens, essenciais para reconhecer novas ameaças. Esse cenário, comum após quimioterapia e radioterapia, faz com que o sistema imune se comporte como o de uma pessoa mais velha.

Após o período de treinamento, os dados mostraram que o perfil imunológico dos sobreviventes tornou-se estatisticamente semelhante ao dos cuidadores saudáveis. As vias inflamatórias recuaram, a flora intestinal foi equalizada e genes ligados à imunidade inata voltaram a se expressar. Enquanto os sobreviventes tiveram ganhos expressivos, o grupo de cuidadores apresentou poucas mudanças, embora ambos tenham dobrado a carga de treino.

O oncologista Stephen Stefani, do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, avalia que a robustez dos resultados e a ausência de toxicidade validam a pesquisa, apesar da amostra reduzida de 16 pessoas. Para o médico, o estudo oferece sinais moleculares consistentes da recuperação da função imune, servindo como uma prova de conceito que pode orientar investigações maiores.

Esses achados complementam evidências anteriores, como um ensaio clínico de 2025 publicado no *New England Journal of Medicine*, que demonstrou que exercícios estruturados após a quimioterapia melhoraram a sobrevida livre de doença em pacientes com câncer de intestino.

A aplicação prática desses dados reflete a trajetória de Ana Carolina Godói. Diagnosticada aos 32 anos com câncer de mama HER2 positivo (estágio 3), ela enfrentou quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Sob orientação médica, iniciou atividades físicas durante o tratamento, progredindo da esteira para a musculação, necessária para recuperar a força do braço após a perda de um nervo na axila. Aos 42 anos, em remissão completa, ela corre meias-maratonas e realiza flexões sem apoio.

Stefani defende que a atividade física deve ser parte da prescrição clínica, e não apenas uma recomendação, devido ao seu impacto no rumo do tratamento. Ele ressalta que a prática acompanhada, como a ocorrida entre familiares, aumenta a adesão ao exercício. O médico pontua que ganhos significativos podem vir de movimentos simples, como levantar-se de uma cadeira, desde que haja orientação e progressão.

A pesquisa original foi interrompida antes do prazo previsto devido à pandemia de Covid-19, que dificultou o deslocamento de pacientes imunocomprometidos. Por isso, a ciência ainda busca definir a dosagem e o tempo exatos de exercício para maximizar esses efeitos.

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