Treze pessoas são consideradas curadas do HIV após transplantes de células-tronco para tratar cânceres
A Sociedade Internacional de AIDS registra 13 pessoas curadas do HIV, todas após transplantes de células-tronco para tratar cânceres. Pesquisas globais e estudos na Unifesp buscam eliminar os reservatórios virais por meio de ativação, silenciamento ou edição genética
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/n/A/fAwktkSea6YcLrhjopmw/hiv.webp)
A ciência avançou do campo teórico para a comprovação prática de que a cura do HIV é possível, embora ainda não exista um tratamento simples e acessível para a população geral. De acordo com a Sociedade Internacional de AIDS (IAS), 13 pessoas são consideradas curadas do vírus, mas todas em contextos específicos, principalmente após a realização de transplantes de células-tronco para o tratamento de cânceres graves, como linfoma ou leucemia.
O principal obstáculo para a generalização da cura reside nos reservatórios virais. Enquanto os medicamentos antirretrovirais controlam a multiplicação do vírus e permitem que a carga viral se torne indetectável — impedindo a transmissão sexual e garantindo qualidade de vida —, eles não eliminam o HIV completamente. O vírus permanece adormecido em células do sistema de defesa, tornando-se invisível aos fármacos. Quando a medicação é interrompida, esse reservatório é reativado e o vírus volta a se multiplicar.
Mecanismos de cura e limitações
Os casos de cura registrados, a começar pelo "paciente de Berlim" (Timothy Ray Brown), ocorreram devido a procedimentos de alto risco que não são indicados para tratar o HIV isoladamente. Nesses pacientes, a cura foi viabilizada por dois fatores principais:
- A substituição de grande parte do sistema imunológico via transplante;
- A utilização de doadores com uma alteração genética que dificulta a entrada do HIV nas células.
Devido aos riscos inerentes ao transplante de medula, a pesquisa global agora foca em reproduzir esses mecanismos de forma segura. A pesquisadora australiana Sharon Lewin indica que a cura nesses casos raros provavelmente resulta da atuação simultânea de vários mecanismos, e que novas abordagens para reforçar a resposta imunológica já permitiram que alguns voluntários controlassem o vírus mesmo sem o uso de antirretrovirais.
Pesquisas e a experiência brasileira
No Brasil, o infectologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lidera estudos para atingir o reservatório viral e fortalecer a imunidade. Um exemplo notável foi o "paciente de São Paulo", que, após receber uma combinação de intervenções e medicamentos, permaneceu em remissão por cerca de um ano após a interrupção da terapia antirretroviral.
Embora o HIV tenha retornado posteriormente, o caso demonstrou que é possível apresentar características semelhantes às de pacientes curados por transplante sem a necessidade do procedimento cirúrgico. O episódio evidenciou, porém, que a ausência de vírus detectável nos exames não garante a eliminação total do patógeno, que pode permanecer oculto por meses ou anos.
Estratégias em desenvolvimento
Atualmente, a ciência testa diferentes frentes para solucionar o problema dos reservatórios:
- Ativação: Tentar "acordar" o vírus escondido para que o organismo possa eliminá-lo.
- Silenciamento: Manter o vírus inativo permanentemente, dispensando o uso de remédios.
- Tecnologias avançadas: Uso de edição genética, terapias celulares e anticorpos.
Na Unifesp, está em preparação um estudo de fase 2 com aproximadamente 60 voluntários para testar a combinação dessas estratégias. Enquanto a cura definitiva exige acompanhamento prolongado e estudos extensos, o HIV já é tratado como uma condição controlável, contando inclusive com ferramentas de prevenção como a PrEP.