Tripulações aéreas apresentam as maiores taxas de mortalidade por cânceres associados à radiação cósmica
Estudo da Escola de Medicina de Harvard indica que tripulações aéreas possuem as maiores taxas de mortalidade por cânceres ligados à radiação cósmica. A análise de óbitos nos EUA registrou incidências de 6,9% entre comissários e 6,7% entre pilotos
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Tripulações aéreas apresentam as maiores taxas de mortalidade por tipos de câncer associados à radiação entre diversas categorias profissionais. O achado, publicado em 17 de agosto no periódico Jama Internal Medicine, indica que a exposição prolongada à radiação cósmica durante o exercício da profissão é o principal fator para esse cenário.
A pesquisa foi conduzida por Vishal Patel, cirurgião e pesquisador, e Anupam Jena, professor de Políticas de Saúde, ambos da Escola de Medicina de Harvard. Para a análise, os cientistas utilizaram o Sistema Nacional de Estatísticas Vitais dos EUA, cruzando dados de quase 13 milhões de óbitos ocorridos entre 2020 e 2024 com as ocupações habituais das vítimas.
Análise de risco e mortalidade
O estudo examinou 503 profissões diferentes, com foco em 14 mil pilotos e 7 mil comissários de bordo. Os dados revelaram que 6,9% das mortes entre comissários e 6,7% entre pilotos foram causadas por cânceres relacionados à radiação, como melanoma, leucemia, câncer de próstata e de mama. Essas porcentagens foram as mais altas de todo o grupo analisado, superando inclusive a de técnicos nucleares, que ocuparam a décima segunda posição no ranking de incidência.
Para validar a hipótese da radiação, os pesquisadores compararam os resultados com outros grupos:
- Tripulações aéreas: Apresentaram alta mortalidade apenas em cânceres ligados à radiação, mantendo níveis normais em outras patologias, como o câncer de cólon.
- Trabalhadores de solo: Mecânicos e montadores de aeronaves, que não voam, não registraram taxas elevadas de mortalidade.
Impacto da radiação cósmica
A vulnerabilidade de pilotos e comissários ocorre porque, em altitudes elevadas, a atmosfera oferece menor proteção contra partículas de alta energia vindas do espaço profundo e do Sol. A intensidade dessa exposição varia conforme a latitude da rota, sendo mais acentuada em trajetos próximos aos polos do que na linha do equador.
De acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a dose anual de radiação para tripulantes é estimada entre 3 e 6 milisieverts. Esse volume é de 7,5 a 15 vezes superior ao recebido por um passageiro que realiza dez voos nacionais de ida e volta por ano, cuja exposição média é de 0,4 milisieverts.
Limitações e regulação trabalhista
Os autores ressaltam que os índices observados são reflexo de carreiras inteiras, acumulando centenas de horas de voo anualmente ao longo de décadas, e não de viagens esporádicas. Por isso, os resultados não sugerem riscos para passageiros comuns.
Embora a correlação seja forte, o estudo não estabelece causalidade definitiva, pois não houve medição individual da exposição. Fatores como a luz ultravioleta na cabine e turnos noturnos podem ter influenciado os padrões.
No campo regulatório, a Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA admite que as tripulações estão expostas à radiação ionizante. Contudo, a Escola de Medicina de Harvard aponta que, diferentemente de outros países e categorias profissionais, as tripulações nos EUA não possuem limites federais de exposição nem a obrigatoriedade de monitoramento desses níveis.