Ciência

Tripulações aéreas têm maior risco de morte por cânceres ligados à radiação cósmica

21 de Agosto de 2026 às 06:04

Estudo da revista JAMA Internal Medicine indica que comissários de bordo e pilotos possuem maior probabilidade de óbito por câncer ligado à radiação cósmica. Comissários apresentam risco 50% superior e pilotos 36% acima da média da população trabalhadora. A pesquisa analisou 12 milhões de atestados de óbito nos Estados Unidos

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Tripulações aéreas têm maior risco de morte por cânceres ligados à radiação cósmica
J. David Ake/AP

Tripulações aéreas, especificamente comissários de bordo e pilotos, apresentam a maior probabilidade de óbito por tipos de câncer associados à exposição à radiação. O risco identificado supera inclusive o de profissionais que manipulam materiais radioativos.

A análise, divulgada pela revista JAMA Internal Medicine, baseou-se em mais de 12 milhões de atestados de óbito nos Estados Unidos, abrangendo mais de 500 categorias profissionais. O foco da pesquisa foram neoplasias ligadas à radiação, como leucemia, linfoma, mieloma múltiplo e tumores de pele, mama, tireoide, próstata e do sistema nervoso central.

Impacto nas taxas de mortalidade

Os dados revelam que comissários de bordo possuem uma chance 50% maior de morrer por esses tipos de câncer em comparação à população trabalhadora geral. Nesse grupo, a proporção de óbitos causados por tais doenças é de 6,9%, o que equivale a aproximadamente 1 em cada 14 mortes.

Já os pilotos apresentam um risco 36% superior ao da média geral, com uma taxa de mortalidade de 6,7%. Para efeito de comparação, a população ocupada em geral registra 5% de óbitos por essas causas. Catherine Olsen e Ken Karipidis, que comentaram o trabalho, observaram que nenhum dos dois grupos de aviação apresentou taxas de morte acima do normal para tumores que não possuem relação com a radiação.

Causas e fatores de risco

A causa está relacionada à radiação cósmica proveniente do espaço. Embora a superfície terrestre receba apenas pequenas quantidades desse agente, a exposição é intensificada para quem voa em grandes altitudes.

Vishal Patel, da Faculdade de Medicina de Harvard, e outros autores do estudo apontam que a ausência de dados sobre o nível exato de exposição individual e possíveis falhas nos registros de óbito são limitações da pesquisa. Outro fator relevante é a desregulação do relógio biológico, causada por jet lag, jornadas irregulares e trocas de fuso horário, que podem agravar o risco de desenvolvimento de câncer.

Regulação e prevenção

Apesar de a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) admitir a exposição das tripulações à radiação ionizante, não existem limites de dose federais ou exigências de monitoramento obrigatório dessa exposição. Sara Nelson, líder de um sindicato que representa 55 mil comissários nos EUA, afirma que os resultados corroboram a necessidade de tratar a exposição à radiação com rigor, pauta que a entidade defende há anos.

No campo preventivo, Olsen e Karipidis recomendam:

  • Realização de exames anuais de pele para profissionais de voo de grande altitude;
  • Antecipação ou maior frequência de mamografias para mulheres nessas profissões;
  • Atenção redobrada de médicos ao avaliar a possibilidade de câncer em pacientes que atuam na aviação.

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