Último grande lago epishelf do Ártico canadense deixa de existir após ruptura de barreira de gelo
A ruptura da barreira de gelo no fiorde de Milne, em Nunavut, causou o desaparecimento do último lago epishelf do Ártico canadense. O processo ocorreu entre julho de 2020 e julho de 2022, resultando na substituição da água doce por água salgada e na extinção de um ecossistema marinho isolado
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O desaparecimento do último grande lago epishelf do Ártico canadense foi detalhado em um estudo publicado na revista Scientific Reports. Localizado no fiorde de Milne, ao norte da ilha de Ellesmere, em Nunavut, o ecossistema, que permaneceu isolado do oceano por milhares de anos, deixou de existir após a ruptura de sua barreira natural de gelo.
A dinâmica do ecossistema de Milne
O sistema funcionava através de uma plataforma de gelo posicionada na entrada do fiorde, que atuava como uma barragem. Essa estrutura impedia que a água doce, originada de glaciares e da terra, fluísse para o mar, acumulando-a sobre a água salgada do Oceano Ártico. O resultado era uma configuração rara: uma camada de água doce sustentada sobre o oceano, separada apenas por uma zona de transição estreita.
Para monitorar a evolução desse ambiente, pesquisadores utilizaram sensores de temperatura e salinidade instalados sob o gelo desde 2011, além de imagens de satélite, observações de campo e perfis anuais da água.
O colapso e a transição salina
Embora o enfraquecimento da plataforma de gelo tenha sido detectado ao longo de décadas, o ponto de inflexão ocorreu em julho de 2020. Naquela data, a barreira de gelo sofreu uma ruptura que eliminou cerca de 45% de sua área, abrindo a conexão direta entre o fiorde e o mar.
O lago, que possuía dimensões comparáveis à ilha de Formentera, esvaziou-se em poucos meses. Dados coletados pela equipe científica confirmaram que, em julho de 2022, a água salgada já havia substituído integralmente a camada de água doce que definia o sistema.
Impacto na biodiversidade isolada
A destruição da plataforma de gelo extinguiu não apenas o lago, mas também um ecossistema marinho adaptado à escuridão total. Em expedições realizadas em 2017, a perfuração do canal de saída sob o gelo revelou a existência de comunidades biológicas ativas, incluindo vieiras, anêmonas marinhas e estrelas de mar frágeis. Com a alteração da estrutura hídrica e a perda do isolamento, essa organização ecológica deixou de existir.
Perspectivas para a região
O fiorde de Milne integra a área marinha protegida de Tuvaijuittuq e a chamada Last Ice Area, região entre o Canadá e a Groenlândia onde o gelo permanente tende a resistir por mais tempo. No entanto, devido à trajetória climática atual, os autores do estudo consideram improvável a reconstrução da plataforma de gelo. A rapidez do processo — onde sistemas milenares desapareceram em meses — indica que a formação de um novo lago com as mesmas características é inviável em escala de tempo humana.