Ciência

UnB desenvolve o primeiro motor de foguete fabricado por impressão 3D metálica no Brasil

30 de Outubro de 2026 às 15:02 3 min de leitura

A Universidade de Brasília desenvolveu o primeiro motor de foguete brasileiro fabricado por manufatura aditiva metálica. O componente de três quilos foi produzido em Joinville (SC) como uma estrutura única, reduzindo o tempo de fabricação de meses para dias

-0:00
UnB desenvolve o primeiro motor de foguete fabricado por impressão 3D metálica no Brasil
UnB criou motor de foguete de três quilos com impressão 3D em metal. A peça única trocou dezenas de peças e ficou pronta em dias, e não em meses, diz a AEB.

A Universidade de Brasília (UnB) desenvolveu o primeiro motor de foguete fabricado via manufatura aditiva metálica no Brasil. Com peso aproximado de três quilos, o componente foi projetado para operar sob condições extremas de temperatura e pressão, consolidando um avanço estratégico para a tecnologia espacial brasileira.

O dispositivo, produzido no Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, em Joinville (SC), utiliza ligas metálicas de alto desempenho. A principal inovação reside na simplificação estrutural: a impressão 3D permitiu que um conjunto anteriormente composto por dezenas de peças fosse substituído por uma única estrutura monolítica. Essa mudança reduziu o tempo de fabricação de meses para poucos dias.

Desafios técnicos e desenvolvimento

A criação do motor exigiu a elaboração de métodos de trabalho próprios, já que não havia histórico de motores fabricados por essa técnica no país. O coordenador do projeto e do Laboratório de Propulsão Química (LPQ) da UnB, professor Olexiy Shynkarenko, destaca que a equipe precisou conciliar princípios de propulsão com as limitações de geometria e materiais do processo de impressão.

Entre os principais obstáculos técnicos estiveram:

  • O controle de defeitos internos invisíveis na superfície da peça;
  • O acabamento de áreas críticas da superfície;
  • A implementação de canais de resfriamento para a estabilidade térmica do motor.

Origem e evolução da pesquisa

O desenvolvimento do motor surgiu inicialmente no projeto SARA (Satélite de Reentrada Atmosférica), liderado pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), com financiamento da Agência Espacial Brasileira (AEB). O objetivo original era criar um sistema de propulsão capaz de retirar o satélite de sua órbita para permitir a reentrada na atmosfera terrestre.

Embora o projeto SARA tenha sido encerrado no final de 2018, a UnB manteve as pesquisas no Campus Gama. O resultado atual é fruto de mais de dez anos de estudos no LPQ, integrando a trajetória de mais de duas décadas da universidade em propulsão espacial. Desde 1999, a instituição atua no desenvolvimento de motores híbridos, tendo sido pioneira no hemisfério sul ao utilizar, em estudos iniciais, polietileno de alta densidade e oxigênio gasoso.

A evolução técnica incluiu, em 2004, os primeiros lançamentos com parafina sólida e óxido nitroso, seguidos pelo sucesso do foguete de sondagem SD-1. Atualmente, a UnB detém o laboratório de testes de propulsores híbridos mais estruturado do Brasil.

Impacto na soberania tecnológica

A iniciativa foi viabilizada pelo Programa UNIESPAÇO, parceria entre a AEB e instituições de ensino criada em 1997 e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) desde 2022. O programa visa formar profissionais e fomentar a inovação em áreas como sensores de satélites, computadores de bordo e materiais resistentes a altas temperaturas.

Para a AEB, a capacidade de projetar e fabricar peças essenciais para missões espaciais internamente é fundamental para a soberania tecnológica do país. O domínio de tecnologias críticas, que unem materiais avançados e experimentação, é visto como o caminho para a autonomia do Brasil no setor aeroespacial.

Notícias Relacionadas